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Tecendo a Escritura

Olá, Nosso Blog é uma janela de acesso aos textos escritos no Laboratório de Criação Literária, in-disciplina desgovernada pelo Cid, professor da Universidade Federal do Ceará. Boa leitura!

contato suspenso

tentando manter o domínio sobre a postura, curvou-se em busca do melhor foco. soube, neste momento, que seus olhos não eram mais suficientes para encontrar o mundo. abdicou da postura e encomendou lentes de contato. cada dia mais atento ao desenrolar dos fatos em redor, com a visão já não tocava as coisas. era, então, à espreita do verbo que as coisas ganhavam forma.  escolheu suas palavras favoritas para aprisionar quem lhe era caro. mas não ali. negócios são negócios. tentava a pena manter-se preso à ação. escrever no silêncio era absurdamente impossível. o ruído deformado do mundo lhe fazia falta. fechava os olhos para formar palavras. escutar a materialização dos sons era como vê-las nascer. e repetia. repetia sempre com o mesmo vigor. tirou as lentes e se pôs a escrever. lidar com as palavras é isso: estar cego para o mundo.
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contorno


no balbucio dos dedos a saliva se entorna
horizonte que assoma impreciso
curso que se faz no exercício
do pouco que a linha
sem pressa
indicia
descortina-se o temor da luz
súbito vergar da folha que vela
indistintas paisagens
farol e sombra do pulso latejando
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desvio


a intensidade do gesto trazia o dizer
a continuidade do gesto fazia o ser
o terreno foi conquistado na força do gesto
no avesso da dobradura
o agora que fosse era sem ser
branco de ausência ausente de poder
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Sem título

Amanhece
sem perceber
o dia acaba.
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Romance - introduçao


Romance : O diário de Penélope Dedalus

Priscilla Falcão

Parte I – Memórias do Gato Filosofo

Meia-Noite.A lua já vai alta no céu e as minhas patas percorrem os telhados,á noite batidos pela luz prata da lua.É bom depois de tanto tempo ainda sentir o vento e o orvalho da noite entre meus pelos ,ao longe as ondas frias do mar transbordante sussurra respostas curtas às perguntas sem resposta no infinito.
Falar de lembranças é como tentar pegar raios de sol.
Por mais vivos e brilhantes ,evenescem em nossas mãos ,só fica o calor ávido e ador profunda no coração.
Falar de alguém que gostamos é suspeito.Sempre escondemos seus crimes e erros,e exageramos seus dotes.
Mas estou aqui para falar de humanidade.
Depois de tão poucos anos de vida ;nesse momento queria ser humano e viver cem ,e experimentar,e cair,e levantar, e sofrer ,e amar.
Mas sete ou nove vidas não ajudam são mínimas ,os instintos também não colaboram ,não me faz sentir o que eu queria sentir.
Mas vou contar o que vi,os sorrisos que presenciei ,os erros ,as culpas ,os medos,e os desejos...
As coisas mais sombrias e os momentos de luz...d um ser humano estranho por fotra e  cheio repleto de infinito.
Alguém que sonha coisas impossivelmente simples ,como tirar fotos de jardim e colher borboletas ;alguém que quer algo do céu e gotas sem sal do mar.alguem cujo beijo mais doce seria numa manha de inverno,em que o sol pálido entre as nuvens carregadas beija as peles enquanto as bocas se tocam...frio por fora quente por dentro...alguem que lê avidamente ...chora com os versos belos,que odeia cenas de amor patéticas ,que festeja os heroísmos ,que se expressiona com os horrores e ardores e se impressiona com os momentos infinitos dos pores-de-sol.
Seu Nome:Penélope Dedalus.
Nesse momento as ondas como que repetem esse nome ...as ondas o ornaram...nem Vênus,nem Hera,nem Atenas imaginaram Perséfone tão humanizada,mas que ainda procura seu Hades ,ou seu Ulisses,talvez este ainda esteja lutando comas sereiaS OU tentando escapar das magias de Circe.
Os deuses não imaginaram tamanha heroína.Mas seus trabalhos são de outra ordem...As mitologias se misturam ...
Mas o humano permanece...
E começamos pela primeira vez que a encontrei ...
Numa Noite como esta ,há 5 anos atrás...
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Pois ,Nao!!!

Pois não!!

-Queijo torrada goiabada e mel.Ah!...e um copo de chá fraco..sem açúcar...
-Pois,não!!!
-Oh!Giacomo quando voltas para a Itália?
-Italia,Itália ..nao preciso mais dela.. não preciso mais de pátrias pútridas me prseguindo..
Cansaço...
-mas mais uma vez perdeste teus rumos..-perdi-me,perdeu-se...acabou...
O que se foi...as armas depõem-se...
Convergem...

-Goibada ou  mel?
-nenhum

-mas sabes ernesto,não sei mais o que esperar e espero ,já desescrevi sobre tudo e prenuncio não há mais amanha nas minhas palavras...
-como não se mesmo a existência inexistente das palavras pesrsiste.

-está na época do trigo?
-não mas nessa regiao  eles são cultivados ate fora das estações.
-ouro que entrança as linhas que escrevo.
-mais alguma coisa?

-acredito somente que as coisas existem   porque sonhamos
-Giacomo...tu e tuas literaturas de quinta


-um café preto e uma água !
-Pois,não!
-Ah!que saudades deste solo que alimentou...saudades dos teus dedos e da grama sobre nos

-Ernesto,minhas palavras são círculos rolando pelo ar..
-Voce sabe que  os círculos de luz constroem o amanha
-mas o amanha não existe para as minhas palavras...o amanha...
O momento infinito da abertura e do fechamento ...sacrilegios num momento tão puro...dor e ardência nas paredes do meu ser...quero viver uma vida de alma em que não exista tempo...discursos de guerra e bocas fechadas...
Apenas caminho...
-Giacomo,a construção do hoje...
-Ernesto ,as sensações sentidas do amanha...

-ach!esse ar frio irrita minhas narinas.
-se agasalhe bem é na próxima estação.

-Ai esta ele ! imagine ,Giacomo divagava sobre o tempo  mas me diga meu caro .Que achas tu do amanha ?
-celulas do indivisível,clã do sobrenatural meu caro Ernesto!
Comprovadamente existente.
-quase me convenceste meu caro Frederico.
-natural da época em que me transportei-me.
-Ah!Giacomo!!!o que  te  faltas?
-saber que não há poeira ,nem luz,nem palavras...
-de fato meu caro Giacomo.o amanha existe...
Implacável...incontrolavel..como um ciclope furioso
-entao plantaremos e amanha se colhera
-macularemos e amanha se purificara
-escreveremos e amanha se libertara

-3 passagens por favor!
-qual destino?
-o amanha insondável...ha!ha!
-Pois,não!!!

-pois não o que os senhores desejam devorar?
-o mundo e suas medidas mesquinhas
-esse prato vem acompanhado de palavras luz e infinito.E um pouco de amanha.
-sabe Ernesto,de repente me sinto em casa.
-estamos na pátria perdida,Giacomo.
-sim,mas falta um coisa meus companheiros.
-posso trazer os pratos?
-sim,mas com um copo de sombra gelada e insondável...
-Pois não!!!


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sobre amor

Sobre o Amor...

Penso
Um ar ,um passo insóbrio,um corpo vazio
Algo aqui não consegue exprimir .Nao esta aqui.Frio.Solidao.As palavras são insuficientes,tornam-se companheiras
A primevera escorre em cachos de flores pelas arvores
O sol pardo e frio da manha  invadindo minha janela...convidando-me...e esse AQUI  infinito...
Um cheiro passa e me envolve estou só .
Vozes me falam me gritam me ensurdecem.
E não ouço.Sinto.Alheio-me destas coisas que restringem a felicidade .A felicidade dsse momento carregado de infinitos.
(e não ouso dizer as palavras proibidas)
Não ouso dizer aquilo que me enlouuece,que me atormenta,que me alucina.
Nunca foi tão difícil dizer
Um furor.Um desejo.
Algo que me faz mortal e humano.
Se eu fosse um deus ,todas as estações seriam para ti ,Quero ver-te em meio a chuva,frio,teu nariz roxo e os lábios tremendo;um corpo abalado pelo medo e o desejo de infinito.Eu dar-te-ei.
Gosto de ver o sol beijar tua pele nas manhas .
Acordamos  juntos .
Gosto do cheiro de for dos lençóis :alfazema e camomila...
Gosto das violetas em um jarro branco no canto da parede...
E o chão de ladrilhos vermelhos.gosto de por alguns momentos respirar o mesmo ar que respiras  .QUENTE.
Gosto dos moveis de madeira rústica,gosto de olhar pela janela e ver a cidade despertando ,gosto de velar teu sono...
Dos teus livros velhos e que tantos amas,como ás vezes confessa,mais do que a mim.
Gosto de te ver falar sobre literatura.
E da tua necessidade de escrever no meio da noite.
(as arvores não sabem o vento não sabe só os meus gatos e algumas flores)
Aquelas flores da mesa da sala de jantar
Você não sabe...
Sensação de indefinido
Mas eu sei das flores que mais gostas
Sei dos teus sorrisos e que danças com as ondas ,a luz dos teus olhos brinca e se perde com as estrelas e sua fraca luz..
Tua voz brinca com o barulho do mar.
Brinco de olhar-te e pero-me
A porta esta aberta e sei que não posso ir ver-te
Por que tu te ocupas tanto.
Sempre escrevendo,lendo ,trabalhando,
E eu aqui pensando-te,olhando-te...
Querendo dizer-te algo.
Algo...
Mas sabe eu prefiro mesmo é fazer –te sentir
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Dose

E no desmantelo da tarde tudo acabou:. a casa caiu, buraco no chão, tem gente no rio, prédio afundou. quem mandou deus quebrar o mundo em dois? em três? já ouviu dizer que o mundo está pior do que bolacha de água e sal? mais esfarelado do que quando o diabo manda? O diabo não manda, atenta. Atenta... atenta pras coisas horrorosas que deus faz, querendo inventar de mudar o mundo assim na hora que lhe apraz. Rapaz, diga isso não. Digo! e grito: deus sabe de nada, quando falta farinha e feijão, bate logo o pé, criando terremoto, maremoto e traz tudo que é de coisa ruim pra esse mundo, miudinho, como se fosse o chaveiro dele. Tu pensa que é quem? Eu sou qualquer um, só não sou cabra ruim feito deus. Rapaz... Se deus fosse gente num tinha nome não, era um marginal de ocasião. Homem, já te disse, diga isso de deus não, vão cair em cima com bala e punhal. Digo e falo pra quem quiser me matar, deus só é deus porque o diabo não é o cão.

Nathan Matos
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Essência

Nos cadernos que me servem de confissões
nas folhas em que me consumo espalhadas pela mesa
no íntimo dos rascunhos dos meus versos
habita a tua essência.

E possui vida comum a minha
nas coisas mais fundamentais
na busca de versos fundamentais
nas coisas que habitam o meu lar.

A tua essência gravou-se em minhas mãos
fundiu-se a feição do meu quarto.

A tua essência permanece em meus lençóis
quando compartilho com os sonhos
a quintessência da tua própria visão.

[Madjer]
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A Tristeza Perfeita

Sabia-se perfeitamente triste: o ar resfolegava no peito, os membros sem vontade própria, a cabeça abandonada, o olhar cansado da perversidade da TV, do tempo, da sala nua. As músicas diziam tudo, absolutamente tudo o que não podia ser ouvido: “Esse meu choro, não quero no peito, arde por dentro e rola na face...”; “Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima...”; “Eu quero roubar no seu jogo, eu já arraiei os seus discos...”; tudo, definitivamente tudo. Emudecia-se com os mais e os porquês. Admitia o silêncio, mesmo que este penetrasse lancinando os seus ouvidos, o acolhia dificilmente porque precisava engolir tudo a seco.
O dia fora bom. Mas o céu fora de esquadro, as horas fora de tom, as cores fora de ordem. Precisou abandonar o trabalho, os amigos, precisou abandonar-se. E o fez logo que começara o dia, tinha direito a tudo, estava perfeitamente triste. Percorreu alguns quarteirões antes que o pensamento fugisse para demasiado distante, necessitava que o pensamento aquiescesse ao propriamente físico, ora!, a sua tristeza perfeita atacava diretamente a carne! Então que tudo fosse perfeitamente triste.
A cabeça pesava de tal modo que preferiu uma vodka. Sentou-se à mesa do centro. Ali permanecia parafusando sua dor, mas antes que concluí-se, ela entrou devastando tudo. O dano maior foi que não o percebeu, chegou quietamente e tomou um local bem próximo ao dele, e não o olhou. Ele baixou a cabeça, ou foi antes uma pedra caindo num abismo! – a única ação que se deu conta é que contava os dedos descontroladamente... e ela não o olhava. “Mas será que ela não me viu? Finge! Sinto que finge! Please God! Help me!”. Levantou-se, e persistia a cabeça baixa. Foi até o banheiro. Um pouco de água na cara. Olhou-se no espelho buscando atingir alguma arma para que também a ferisse, mas, quando se lembrou de sua fraqueza, outra levada de água arrastou tudo pelo ralo da pia, e a única arma que lhe restou – a que necessitava de muita força para carregá-la – foi ainda sua cara de espanto. Voltou com a resolução de desenterrar tudo daquele buraco que cavaram e agora só escondia-se nele, somente dentro dele, sem que o pudesse tampá-lo por inteiro. “Diga-me! Se me ferir – ora! O que pode mais pesar sobre mim? – sou o responsável! Mas prefiro saber tudo de uma vez! Não me obrigue...”, e ela não o olhava. Então ele percebeu aquele sorriso ardiloso. E ela concentrou todo o seu peso sobre o olhar dele. Ele então procura alguma outra direção, carregando os olhos para um lado e para o outro, mas não conseguia mais o chão. A sua tristeza perfeita transformava-o em algo que ele nunca pôde reconhecer que havia dentro dele. Desesperou-se e efetivamente virou o copo com vodka num trago breve e sem piedade de si. A cara enrubesceu tão repentinamente, que não pode tocar em sua face. “Diga-me, por favor!...”. O punho seco sobre a mesa e ela permanecia o silêncio daquele sorriso ardiloso...
A sua tristeza perfeita nunca mais fora a mesma. Agora ele permanecia tão fissurado, ou até mesmo mais apaixonado por ela, que vivia pelas ruas desencontrando os amigos, a família, a si mesmo. A única razão agora seria encontrar ele mesmo a resposta, ou sabe-se lá o que procurava em meio aquele abandono total. “Diga-me, por favor!”. E ela, que o elegeu ao seu governo absoluto, escondia-se no único lugar em que ele não conseguia alcançá-la por completo: dentro do buraco que ele próprio cavara.

[Madjer]
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Concessão

Pôde enfiar profundamente o fio da lâmina no peito... sem esperas, sem concessões. Arrancou, desentranhando voluptuosamente talvez os últimos pedaços daquele corpo já sem vida, lasso, funesto, e outras sentenças que ela procurava adicionar ao que abandonou em suas mãos. Imaginava que ali seria o fim. A redenção de toda a dor... No meio do peito! – concebia que era no meio do peito, o lado direito ou o lado esquerdo deixou para as metáforas – no meio da carne!
            – A...deus?...
            A palavra não o importunou pelo fato de significar o gesto ou sinal de despedida ou separação física entre sujeitos; sim pelo elevador atarracado em sua garganta: as engrenagens enferrujadas, o ranger queimando as cordas vocais, a saliva seca. Pesou como um pé furioso esmagando uma barata que se esconde entre os livros da estante e busca salvar-se desabotoando as asas. E ela, sem concessões, odiava terrivelmente as baratas.
            Quando se viu na rua sem sol, sem cor, sem chão, procurou andar pausadamente e respirar sem culpas, pois pesava em suas mãos o que ela o entregou sem nenhuma chance de vida. Mas ainda assim, sentiu-se responsável, e chorou. Não a queixa dos infelizes, mas a dos perdidos. Sentia, de súbito, os soluços clamando-lhe algo informe; os olhos encarnados, respondendo ao que experimentava o sangue na face a percorrer-lhe abrasadamente. Mas ainda tentou respirar sem culpas e deu um suspiro fundamente... perdendo os olhos nas ruas sem fim, sem fim...
            Sua casa agora era uma alta torre. Perdeu-se ali para encontrar uma solução que pudesse reavivar o corpaço lhe entregue. Intentou ondas eletromagnéticas, e a vida sempre ocupada; esforçou-se na cirurgia de uma letra delineada, e o talento que outrora relegou, não o fez por milagres um virtuose; pensou ainda uma oração potente... mas as forças de suas crenças não o permitiu ir muito longe, apenas: “Por favor meu Deus!”, mas em meio a uma confusão de lágrimas.
            Vai até a estante, recolhe o livro espesso, abre-o como quem abre a geladeira depois de uma caminhada num deserto de sal: “Era um botão feliz / Sorrindo para o Azul, zombando da matéria...”. Apercebeu-se que uma barata desabotoava as asas, mas... Uh! Conseguiu encerrá-la nas mãos e sem concessões a pôs na boca, mastigou um pouco; o hálito rançoso, os olhos abertíssimos concentrando-se na luz amarela da lâmpada. Engoliu e sentou-se. Antes que amanhecesse, pois que uns escassos raios de sol invadiam a sala, adormeceu no último suspiro de inocência.

[Madjer]
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Portas Abertas


             Arrancou as portas. Arrancadas parecia mais convidativo, ameaçador. Arranjou ali uma cadeira. Um pedaço do cano longo se mostrava obscuro e suntuoso.
            O casarão remoto, agora sem portas, parecia mais antigo. As paredes descascadas contrastavam com a expressão do Velho. Ali se montara rapaz, fizera patrimônio.
            - Minha honra, desde que aqui me acheguei, eu mesmo que fiz!
            - Eu sei, sei!
            - E um cabra desse acha que pode se impor!
            Fora ameaçado. Logo ele, amigo de coronel e comerciante, dono das casas, das terras da cidadezinha nova.
            O Velho reclamava da vista. A idade avançada e o trabalho que ainda exigia um bocado roubavam-no a pouca saúde. Mas teimava, lutava contra os infortúnios, resolvia se fosse necessário resolver. Os anos cruzavam irremediavelmente, mas restava a força do espírito, do orgulho que liderava mais.
            - Essa minha vista tá escurinha...
            As entradas do casarão ficaram abertas, dia e noite. Foi período de expectativa. Até que elas se fechassem, cumprir-se-ia ali um fadário.
            O outro velho, dono da casa da frente, bruto demais, por isso mesmo cheio de inimizades. Era um palavreado que só ele.
            - Esse velhinho tá se achando que governa. Meto-lhe nas fuças!
            - Homi... olha que valentia é força!
            - Entro é com tudo!
            O Velho quando soube, o martelo ecoou num estampido denso. As portas do casarão postas a baixo. O outro velho, quando entrava em casa, se deparou com aquelas portas imensas, pesadonas.
            - Que se foi?
            - Ele derribou as portas, sozinho.
            - ...
            - Inda anunciou: homi com ele se resolve é com as portas abertas!
            E o Velho esperou, esperou... Passava a tarde. Só entrava quando as luzes se apagavam. E foi muito andamento que isso persistiu. O outro velho, introvertido. Caminhava, olhava pouco para os lados. Um olho terrível o seguia.
            Em noite de festa, uns tantos que persistiam em vadiar, se reuniram no banco de frente ao casarão. Foi quando viram o Velho correr.
            - Mas olhe só, o velho ainda tem pé!
            Acertara-o bem no pé da nuca. E proclamava:
            - Homi comigo é de portas abertas!
            Chegou com o lampião, o rosto do homem parecia novo demais. As portas abertas, mas o Velho estava atento. Por isso mesmo que só bastou um disparo. Mas o homem parecia novo demais. Coçou a cabeça, bocejou qualquer desgraça, passou a mão na vista, mas teve tempo de pensar que era isso mesmo.
            - Meter-se às escondidas...
            De manhã cedo, um e outro cumprimentando o Velho.
            - Meu velho! Soube do feito. O homi inda tá cheio de vida!
            - Que nada... Olhe que eu errei o tiro.

[Madjer]
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    tentando manter o domínio sobre a postura, curvou-se em busca do melhor foco. soube, neste momento, que seus olhos não eram mais suficientes para encontrar o mundo. abdicou da postura e encomendou lentes de contato. cada dia mais atento ao desenrolar dos fatos em redor, com a visão já não tocava as coisas. era, então, à espreita do verbo que as coisas ganhavam forma.  escolheu suas palavras favoritas para aprisionar quem lhe era caro. mas não ali. negócios são negócios. tentava a pena manter-se preso à ação. escrever no silêncio era absurdamente impossível. o ruído deformado do mundo lhe fazia falta. fechava os olhos para formar palavras. escutar a materialização dos sons era como vê-las nascer. e repetia. repetia sempre com o mesmo vigor. tirou as lentes e se pôs a escrever. lidar com as palavras é isso: estar cego para o mundo.

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    contorno


    no balbucio dos dedos a saliva se entorna
    horizonte que assoma impreciso
    curso que se faz no exercício
    do pouco que a linha
    sem pressa
    indicia
    descortina-se o temor da luz
    súbito vergar da folha que vela
    indistintas paisagens
    farol e sombra do pulso latejando

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    a intensidade do gesto trazia o dizer
    a continuidade do gesto fazia o ser
    o terreno foi conquistado na força do gesto
    no avesso da dobradura
    o agora que fosse era sem ser
    branco de ausência ausente de poder

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    sem perceber
    o dia acaba.

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    Romance - introduçao


    Romance : O diário de Penélope Dedalus

    Priscilla Falcão

    Parte I – Memórias do Gato Filosofo

    Meia-Noite.A lua já vai alta no céu e as minhas patas percorrem os telhados,á noite batidos pela luz prata da lua.É bom depois de tanto tempo ainda sentir o vento e o orvalho da noite entre meus pelos ,ao longe as ondas frias do mar transbordante sussurra respostas curtas às perguntas sem resposta no infinito.
    Falar de lembranças é como tentar pegar raios de sol.
    Por mais vivos e brilhantes ,evenescem em nossas mãos ,só fica o calor ávido e ador profunda no coração.
    Falar de alguém que gostamos é suspeito.Sempre escondemos seus crimes e erros,e exageramos seus dotes.
    Mas estou aqui para falar de humanidade.
    Depois de tão poucos anos de vida ;nesse momento queria ser humano e viver cem ,e experimentar,e cair,e levantar, e sofrer ,e amar.
    Mas sete ou nove vidas não ajudam são mínimas ,os instintos também não colaboram ,não me faz sentir o que eu queria sentir.
    Mas vou contar o que vi,os sorrisos que presenciei ,os erros ,as culpas ,os medos,e os desejos...
    As coisas mais sombrias e os momentos de luz...d um ser humano estranho por fotra e  cheio repleto de infinito.
    Alguém que sonha coisas impossivelmente simples ,como tirar fotos de jardim e colher borboletas ;alguém que quer algo do céu e gotas sem sal do mar.alguem cujo beijo mais doce seria numa manha de inverno,em que o sol pálido entre as nuvens carregadas beija as peles enquanto as bocas se tocam...frio por fora quente por dentro...alguem que lê avidamente ...chora com os versos belos,que odeia cenas de amor patéticas ,que festeja os heroísmos ,que se expressiona com os horrores e ardores e se impressiona com os momentos infinitos dos pores-de-sol.
    Seu Nome:Penélope Dedalus.
    Nesse momento as ondas como que repetem esse nome ...as ondas o ornaram...nem Vênus,nem Hera,nem Atenas imaginaram Perséfone tão humanizada,mas que ainda procura seu Hades ,ou seu Ulisses,talvez este ainda esteja lutando comas sereiaS OU tentando escapar das magias de Circe.
    Os deuses não imaginaram tamanha heroína.Mas seus trabalhos são de outra ordem...As mitologias se misturam ...
    Mas o humano permanece...
    E começamos pela primeira vez que a encontrei ...
    Numa Noite como esta ,há 5 anos atrás...

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    Pois ,Nao!!!

    Pois não!!

    -Queijo torrada goiabada e mel.Ah!...e um copo de chá fraco..sem açúcar...
    -Pois,não!!!
    -Oh!Giacomo quando voltas para a Itália?
    -Italia,Itália ..nao preciso mais dela.. não preciso mais de pátrias pútridas me prseguindo..
    Cansaço...
    -mas mais uma vez perdeste teus rumos..-perdi-me,perdeu-se...acabou...
    O que se foi...as armas depõem-se...
    Convergem...

    -Goibada ou  mel?
    -nenhum

    -mas sabes ernesto,não sei mais o que esperar e espero ,já desescrevi sobre tudo e prenuncio não há mais amanha nas minhas palavras...
    -como não se mesmo a existência inexistente das palavras pesrsiste.

    -está na época do trigo?
    -não mas nessa regiao  eles são cultivados ate fora das estações.
    -ouro que entrança as linhas que escrevo.
    -mais alguma coisa?

    -acredito somente que as coisas existem   porque sonhamos
    -Giacomo...tu e tuas literaturas de quinta


    -um café preto e uma água !
    -Pois,não!
    -Ah!que saudades deste solo que alimentou...saudades dos teus dedos e da grama sobre nos

    -Ernesto,minhas palavras são círculos rolando pelo ar..
    -Voce sabe que  os círculos de luz constroem o amanha
    -mas o amanha não existe para as minhas palavras...o amanha...
    O momento infinito da abertura e do fechamento ...sacrilegios num momento tão puro...dor e ardência nas paredes do meu ser...quero viver uma vida de alma em que não exista tempo...discursos de guerra e bocas fechadas...
    Apenas caminho...
    -Giacomo,a construção do hoje...
    -Ernesto ,as sensações sentidas do amanha...

    -ach!esse ar frio irrita minhas narinas.
    -se agasalhe bem é na próxima estação.

    -Ai esta ele ! imagine ,Giacomo divagava sobre o tempo  mas me diga meu caro .Que achas tu do amanha ?
    -celulas do indivisível,clã do sobrenatural meu caro Ernesto!
    Comprovadamente existente.
    -quase me convenceste meu caro Frederico.
    -natural da época em que me transportei-me.
    -Ah!Giacomo!!!o que  te  faltas?
    -saber que não há poeira ,nem luz,nem palavras...
    -de fato meu caro Giacomo.o amanha existe...
    Implacável...incontrolavel..como um ciclope furioso
    -entao plantaremos e amanha se colhera
    -macularemos e amanha se purificara
    -escreveremos e amanha se libertara

    -3 passagens por favor!
    -qual destino?
    -o amanha insondável...ha!ha!
    -Pois,não!!!

    -pois não o que os senhores desejam devorar?
    -o mundo e suas medidas mesquinhas
    -esse prato vem acompanhado de palavras luz e infinito.E um pouco de amanha.
    -sabe Ernesto,de repente me sinto em casa.
    -estamos na pátria perdida,Giacomo.
    -sim,mas falta um coisa meus companheiros.
    -posso trazer os pratos?
    -sim,mas com um copo de sombra gelada e insondável...
    -Pois não!!!


    [+/-]

    sobre amor

    Sobre o Amor...

    Penso
    Um ar ,um passo insóbrio,um corpo vazio
    Algo aqui não consegue exprimir .Nao esta aqui.Frio.Solidao.As palavras são insuficientes,tornam-se companheiras
    A primevera escorre em cachos de flores pelas arvores
    O sol pardo e frio da manha  invadindo minha janela...convidando-me...e esse AQUI  infinito...
    Um cheiro passa e me envolve estou só .
    Vozes me falam me gritam me ensurdecem.
    E não ouço.Sinto.Alheio-me destas coisas que restringem a felicidade .A felicidade dsse momento carregado de infinitos.
    (e não ouso dizer as palavras proibidas)
    Não ouso dizer aquilo que me enlouuece,que me atormenta,que me alucina.
    Nunca foi tão difícil dizer
    Um furor.Um desejo.
    Algo que me faz mortal e humano.
    Se eu fosse um deus ,todas as estações seriam para ti ,Quero ver-te em meio a chuva,frio,teu nariz roxo e os lábios tremendo;um corpo abalado pelo medo e o desejo de infinito.Eu dar-te-ei.
    Gosto de ver o sol beijar tua pele nas manhas .
    Acordamos  juntos .
    Gosto do cheiro de for dos lençóis :alfazema e camomila...
    Gosto das violetas em um jarro branco no canto da parede...
    E o chão de ladrilhos vermelhos.gosto de por alguns momentos respirar o mesmo ar que respiras  .QUENTE.
    Gosto dos moveis de madeira rústica,gosto de olhar pela janela e ver a cidade despertando ,gosto de velar teu sono...
    Dos teus livros velhos e que tantos amas,como ás vezes confessa,mais do que a mim.
    Gosto de te ver falar sobre literatura.
    E da tua necessidade de escrever no meio da noite.
    (as arvores não sabem o vento não sabe só os meus gatos e algumas flores)
    Aquelas flores da mesa da sala de jantar
    Você não sabe...
    Sensação de indefinido
    Mas eu sei das flores que mais gostas
    Sei dos teus sorrisos e que danças com as ondas ,a luz dos teus olhos brinca e se perde com as estrelas e sua fraca luz..
    Tua voz brinca com o barulho do mar.
    Brinco de olhar-te e pero-me
    A porta esta aberta e sei que não posso ir ver-te
    Por que tu te ocupas tanto.
    Sempre escrevendo,lendo ,trabalhando,
    E eu aqui pensando-te,olhando-te...
    Querendo dizer-te algo.
    Algo...
    Mas sabe eu prefiro mesmo é fazer –te sentir

    [+/-]

    Dose

    E no desmantelo da tarde tudo acabou:. a casa caiu, buraco no chão, tem gente no rio, prédio afundou. quem mandou deus quebrar o mundo em dois? em três? já ouviu dizer que o mundo está pior do que bolacha de água e sal? mais esfarelado do que quando o diabo manda? O diabo não manda, atenta. Atenta... atenta pras coisas horrorosas que deus faz, querendo inventar de mudar o mundo assim na hora que lhe apraz. Rapaz, diga isso não. Digo! e grito: deus sabe de nada, quando falta farinha e feijão, bate logo o pé, criando terremoto, maremoto e traz tudo que é de coisa ruim pra esse mundo, miudinho, como se fosse o chaveiro dele. Tu pensa que é quem? Eu sou qualquer um, só não sou cabra ruim feito deus. Rapaz... Se deus fosse gente num tinha nome não, era um marginal de ocasião. Homem, já te disse, diga isso de deus não, vão cair em cima com bala e punhal. Digo e falo pra quem quiser me matar, deus só é deus porque o diabo não é o cão.

    Nathan Matos

    [+/-]

    Essência

    Nos cadernos que me servem de confissões
    nas folhas em que me consumo espalhadas pela mesa
    no íntimo dos rascunhos dos meus versos
    habita a tua essência.

    E possui vida comum a minha
    nas coisas mais fundamentais
    na busca de versos fundamentais
    nas coisas que habitam o meu lar.

    A tua essência gravou-se em minhas mãos
    fundiu-se a feição do meu quarto.

    A tua essência permanece em meus lençóis
    quando compartilho com os sonhos
    a quintessência da tua própria visão.

    [Madjer]

    [+/-]

    A Tristeza Perfeita

    Sabia-se perfeitamente triste: o ar resfolegava no peito, os membros sem vontade própria, a cabeça abandonada, o olhar cansado da perversidade da TV, do tempo, da sala nua. As músicas diziam tudo, absolutamente tudo o que não podia ser ouvido: “Esse meu choro, não quero no peito, arde por dentro e rola na face...”; “Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima...”; “Eu quero roubar no seu jogo, eu já arraiei os seus discos...”; tudo, definitivamente tudo. Emudecia-se com os mais e os porquês. Admitia o silêncio, mesmo que este penetrasse lancinando os seus ouvidos, o acolhia dificilmente porque precisava engolir tudo a seco.
    O dia fora bom. Mas o céu fora de esquadro, as horas fora de tom, as cores fora de ordem. Precisou abandonar o trabalho, os amigos, precisou abandonar-se. E o fez logo que começara o dia, tinha direito a tudo, estava perfeitamente triste. Percorreu alguns quarteirões antes que o pensamento fugisse para demasiado distante, necessitava que o pensamento aquiescesse ao propriamente físico, ora!, a sua tristeza perfeita atacava diretamente a carne! Então que tudo fosse perfeitamente triste.
    A cabeça pesava de tal modo que preferiu uma vodka. Sentou-se à mesa do centro. Ali permanecia parafusando sua dor, mas antes que concluí-se, ela entrou devastando tudo. O dano maior foi que não o percebeu, chegou quietamente e tomou um local bem próximo ao dele, e não o olhou. Ele baixou a cabeça, ou foi antes uma pedra caindo num abismo! – a única ação que se deu conta é que contava os dedos descontroladamente... e ela não o olhava. “Mas será que ela não me viu? Finge! Sinto que finge! Please God! Help me!”. Levantou-se, e persistia a cabeça baixa. Foi até o banheiro. Um pouco de água na cara. Olhou-se no espelho buscando atingir alguma arma para que também a ferisse, mas, quando se lembrou de sua fraqueza, outra levada de água arrastou tudo pelo ralo da pia, e a única arma que lhe restou – a que necessitava de muita força para carregá-la – foi ainda sua cara de espanto. Voltou com a resolução de desenterrar tudo daquele buraco que cavaram e agora só escondia-se nele, somente dentro dele, sem que o pudesse tampá-lo por inteiro. “Diga-me! Se me ferir – ora! O que pode mais pesar sobre mim? – sou o responsável! Mas prefiro saber tudo de uma vez! Não me obrigue...”, e ela não o olhava. Então ele percebeu aquele sorriso ardiloso. E ela concentrou todo o seu peso sobre o olhar dele. Ele então procura alguma outra direção, carregando os olhos para um lado e para o outro, mas não conseguia mais o chão. A sua tristeza perfeita transformava-o em algo que ele nunca pôde reconhecer que havia dentro dele. Desesperou-se e efetivamente virou o copo com vodka num trago breve e sem piedade de si. A cara enrubesceu tão repentinamente, que não pode tocar em sua face. “Diga-me, por favor!...”. O punho seco sobre a mesa e ela permanecia o silêncio daquele sorriso ardiloso...
    A sua tristeza perfeita nunca mais fora a mesma. Agora ele permanecia tão fissurado, ou até mesmo mais apaixonado por ela, que vivia pelas ruas desencontrando os amigos, a família, a si mesmo. A única razão agora seria encontrar ele mesmo a resposta, ou sabe-se lá o que procurava em meio aquele abandono total. “Diga-me, por favor!”. E ela, que o elegeu ao seu governo absoluto, escondia-se no único lugar em que ele não conseguia alcançá-la por completo: dentro do buraco que ele próprio cavara.

    [Madjer]

    [+/-]

    Concessão

    Pôde enfiar profundamente o fio da lâmina no peito... sem esperas, sem concessões. Arrancou, desentranhando voluptuosamente talvez os últimos pedaços daquele corpo já sem vida, lasso, funesto, e outras sentenças que ela procurava adicionar ao que abandonou em suas mãos. Imaginava que ali seria o fim. A redenção de toda a dor... No meio do peito! – concebia que era no meio do peito, o lado direito ou o lado esquerdo deixou para as metáforas – no meio da carne!
                – A...deus?...
                A palavra não o importunou pelo fato de significar o gesto ou sinal de despedida ou separação física entre sujeitos; sim pelo elevador atarracado em sua garganta: as engrenagens enferrujadas, o ranger queimando as cordas vocais, a saliva seca. Pesou como um pé furioso esmagando uma barata que se esconde entre os livros da estante e busca salvar-se desabotoando as asas. E ela, sem concessões, odiava terrivelmente as baratas.
                Quando se viu na rua sem sol, sem cor, sem chão, procurou andar pausadamente e respirar sem culpas, pois pesava em suas mãos o que ela o entregou sem nenhuma chance de vida. Mas ainda assim, sentiu-se responsável, e chorou. Não a queixa dos infelizes, mas a dos perdidos. Sentia, de súbito, os soluços clamando-lhe algo informe; os olhos encarnados, respondendo ao que experimentava o sangue na face a percorrer-lhe abrasadamente. Mas ainda tentou respirar sem culpas e deu um suspiro fundamente... perdendo os olhos nas ruas sem fim, sem fim...
                Sua casa agora era uma alta torre. Perdeu-se ali para encontrar uma solução que pudesse reavivar o corpaço lhe entregue. Intentou ondas eletromagnéticas, e a vida sempre ocupada; esforçou-se na cirurgia de uma letra delineada, e o talento que outrora relegou, não o fez por milagres um virtuose; pensou ainda uma oração potente... mas as forças de suas crenças não o permitiu ir muito longe, apenas: “Por favor meu Deus!”, mas em meio a uma confusão de lágrimas.
                Vai até a estante, recolhe o livro espesso, abre-o como quem abre a geladeira depois de uma caminhada num deserto de sal: “Era um botão feliz / Sorrindo para o Azul, zombando da matéria...”. Apercebeu-se que uma barata desabotoava as asas, mas... Uh! Conseguiu encerrá-la nas mãos e sem concessões a pôs na boca, mastigou um pouco; o hálito rançoso, os olhos abertíssimos concentrando-se na luz amarela da lâmpada. Engoliu e sentou-se. Antes que amanhecesse, pois que uns escassos raios de sol invadiam a sala, adormeceu no último suspiro de inocência.

    [Madjer]

    [+/-]

    Portas Abertas


                 Arrancou as portas. Arrancadas parecia mais convidativo, ameaçador. Arranjou ali uma cadeira. Um pedaço do cano longo se mostrava obscuro e suntuoso.
                O casarão remoto, agora sem portas, parecia mais antigo. As paredes descascadas contrastavam com a expressão do Velho. Ali se montara rapaz, fizera patrimônio.
                - Minha honra, desde que aqui me acheguei, eu mesmo que fiz!
                - Eu sei, sei!
                - E um cabra desse acha que pode se impor!
                Fora ameaçado. Logo ele, amigo de coronel e comerciante, dono das casas, das terras da cidadezinha nova.
                O Velho reclamava da vista. A idade avançada e o trabalho que ainda exigia um bocado roubavam-no a pouca saúde. Mas teimava, lutava contra os infortúnios, resolvia se fosse necessário resolver. Os anos cruzavam irremediavelmente, mas restava a força do espírito, do orgulho que liderava mais.
                - Essa minha vista tá escurinha...
                As entradas do casarão ficaram abertas, dia e noite. Foi período de expectativa. Até que elas se fechassem, cumprir-se-ia ali um fadário.
                O outro velho, dono da casa da frente, bruto demais, por isso mesmo cheio de inimizades. Era um palavreado que só ele.
                - Esse velhinho tá se achando que governa. Meto-lhe nas fuças!
                - Homi... olha que valentia é força!
                - Entro é com tudo!
                O Velho quando soube, o martelo ecoou num estampido denso. As portas do casarão postas a baixo. O outro velho, quando entrava em casa, se deparou com aquelas portas imensas, pesadonas.
                - Que se foi?
                - Ele derribou as portas, sozinho.
                - ...
                - Inda anunciou: homi com ele se resolve é com as portas abertas!
                E o Velho esperou, esperou... Passava a tarde. Só entrava quando as luzes se apagavam. E foi muito andamento que isso persistiu. O outro velho, introvertido. Caminhava, olhava pouco para os lados. Um olho terrível o seguia.
                Em noite de festa, uns tantos que persistiam em vadiar, se reuniram no banco de frente ao casarão. Foi quando viram o Velho correr.
                - Mas olhe só, o velho ainda tem pé!
                Acertara-o bem no pé da nuca. E proclamava:
                - Homi comigo é de portas abertas!
                Chegou com o lampião, o rosto do homem parecia novo demais. As portas abertas, mas o Velho estava atento. Por isso mesmo que só bastou um disparo. Mas o homem parecia novo demais. Coçou a cabeça, bocejou qualquer desgraça, passou a mão na vista, mas teve tempo de pensar que era isso mesmo.
                - Meter-se às escondidas...
                De manhã cedo, um e outro cumprimentando o Velho.
                - Meu velho! Soube do feito. O homi inda tá cheio de vida!
                - Que nada... Olhe que eu errei o tiro.

    [Madjer]

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