• Home
  • Posts RSS
  • Comments RSS
  • Edit
Blue Orange Green Pink Purple

Tecendo a Escritura

Olá, Nosso Blog é uma janela de acesso aos textos escritos no Laboratório de Criação Literária, in-disciplina desgovernada pelo Cid, professor da Universidade Federal do Ceará. Boa leitura!
Mostrando postagens com marcador Madjer. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Madjer. Mostrar todas as postagens

Essência

Nos cadernos que me servem de confissões
nas folhas em que me consumo espalhadas pela mesa
no íntimo dos rascunhos dos meus versos
habita a tua essência.

E possui vida comum a minha
nas coisas mais fundamentais
na busca de versos fundamentais
nas coisas que habitam o meu lar.

A tua essência gravou-se em minhas mãos
fundiu-se a feição do meu quarto.

A tua essência permanece em meus lençóis
quando compartilho com os sonhos
a quintessência da tua própria visão.

[Madjer]
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura

A Tristeza Perfeita

Sabia-se perfeitamente triste: o ar resfolegava no peito, os membros sem vontade própria, a cabeça abandonada, o olhar cansado da perversidade da TV, do tempo, da sala nua. As músicas diziam tudo, absolutamente tudo o que não podia ser ouvido: “Esse meu choro, não quero no peito, arde por dentro e rola na face...”; “Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima...”; “Eu quero roubar no seu jogo, eu já arraiei os seus discos...”; tudo, definitivamente tudo. Emudecia-se com os mais e os porquês. Admitia o silêncio, mesmo que este penetrasse lancinando os seus ouvidos, o acolhia dificilmente porque precisava engolir tudo a seco.
O dia fora bom. Mas o céu fora de esquadro, as horas fora de tom, as cores fora de ordem. Precisou abandonar o trabalho, os amigos, precisou abandonar-se. E o fez logo que começara o dia, tinha direito a tudo, estava perfeitamente triste. Percorreu alguns quarteirões antes que o pensamento fugisse para demasiado distante, necessitava que o pensamento aquiescesse ao propriamente físico, ora!, a sua tristeza perfeita atacava diretamente a carne! Então que tudo fosse perfeitamente triste.
A cabeça pesava de tal modo que preferiu uma vodka. Sentou-se à mesa do centro. Ali permanecia parafusando sua dor, mas antes que concluí-se, ela entrou devastando tudo. O dano maior foi que não o percebeu, chegou quietamente e tomou um local bem próximo ao dele, e não o olhou. Ele baixou a cabeça, ou foi antes uma pedra caindo num abismo! – a única ação que se deu conta é que contava os dedos descontroladamente... e ela não o olhava. “Mas será que ela não me viu? Finge! Sinto que finge! Please God! Help me!”. Levantou-se, e persistia a cabeça baixa. Foi até o banheiro. Um pouco de água na cara. Olhou-se no espelho buscando atingir alguma arma para que também a ferisse, mas, quando se lembrou de sua fraqueza, outra levada de água arrastou tudo pelo ralo da pia, e a única arma que lhe restou – a que necessitava de muita força para carregá-la – foi ainda sua cara de espanto. Voltou com a resolução de desenterrar tudo daquele buraco que cavaram e agora só escondia-se nele, somente dentro dele, sem que o pudesse tampá-lo por inteiro. “Diga-me! Se me ferir – ora! O que pode mais pesar sobre mim? – sou o responsável! Mas prefiro saber tudo de uma vez! Não me obrigue...”, e ela não o olhava. Então ele percebeu aquele sorriso ardiloso. E ela concentrou todo o seu peso sobre o olhar dele. Ele então procura alguma outra direção, carregando os olhos para um lado e para o outro, mas não conseguia mais o chão. A sua tristeza perfeita transformava-o em algo que ele nunca pôde reconhecer que havia dentro dele. Desesperou-se e efetivamente virou o copo com vodka num trago breve e sem piedade de si. A cara enrubesceu tão repentinamente, que não pode tocar em sua face. “Diga-me, por favor!...”. O punho seco sobre a mesa e ela permanecia o silêncio daquele sorriso ardiloso...
A sua tristeza perfeita nunca mais fora a mesma. Agora ele permanecia tão fissurado, ou até mesmo mais apaixonado por ela, que vivia pelas ruas desencontrando os amigos, a família, a si mesmo. A única razão agora seria encontrar ele mesmo a resposta, ou sabe-se lá o que procurava em meio aquele abandono total. “Diga-me, por favor!”. E ela, que o elegeu ao seu governo absoluto, escondia-se no único lugar em que ele não conseguia alcançá-la por completo: dentro do buraco que ele próprio cavara.

[Madjer]
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura

Concessão

Pôde enfiar profundamente o fio da lâmina no peito... sem esperas, sem concessões. Arrancou, desentranhando voluptuosamente talvez os últimos pedaços daquele corpo já sem vida, lasso, funesto, e outras sentenças que ela procurava adicionar ao que abandonou em suas mãos. Imaginava que ali seria o fim. A redenção de toda a dor... No meio do peito! – concebia que era no meio do peito, o lado direito ou o lado esquerdo deixou para as metáforas – no meio da carne!
            – A...deus?...
            A palavra não o importunou pelo fato de significar o gesto ou sinal de despedida ou separação física entre sujeitos; sim pelo elevador atarracado em sua garganta: as engrenagens enferrujadas, o ranger queimando as cordas vocais, a saliva seca. Pesou como um pé furioso esmagando uma barata que se esconde entre os livros da estante e busca salvar-se desabotoando as asas. E ela, sem concessões, odiava terrivelmente as baratas.
            Quando se viu na rua sem sol, sem cor, sem chão, procurou andar pausadamente e respirar sem culpas, pois pesava em suas mãos o que ela o entregou sem nenhuma chance de vida. Mas ainda assim, sentiu-se responsável, e chorou. Não a queixa dos infelizes, mas a dos perdidos. Sentia, de súbito, os soluços clamando-lhe algo informe; os olhos encarnados, respondendo ao que experimentava o sangue na face a percorrer-lhe abrasadamente. Mas ainda tentou respirar sem culpas e deu um suspiro fundamente... perdendo os olhos nas ruas sem fim, sem fim...
            Sua casa agora era uma alta torre. Perdeu-se ali para encontrar uma solução que pudesse reavivar o corpaço lhe entregue. Intentou ondas eletromagnéticas, e a vida sempre ocupada; esforçou-se na cirurgia de uma letra delineada, e o talento que outrora relegou, não o fez por milagres um virtuose; pensou ainda uma oração potente... mas as forças de suas crenças não o permitiu ir muito longe, apenas: “Por favor meu Deus!”, mas em meio a uma confusão de lágrimas.
            Vai até a estante, recolhe o livro espesso, abre-o como quem abre a geladeira depois de uma caminhada num deserto de sal: “Era um botão feliz / Sorrindo para o Azul, zombando da matéria...”. Apercebeu-se que uma barata desabotoava as asas, mas... Uh! Conseguiu encerrá-la nas mãos e sem concessões a pôs na boca, mastigou um pouco; o hálito rançoso, os olhos abertíssimos concentrando-se na luz amarela da lâmpada. Engoliu e sentou-se. Antes que amanhecesse, pois que uns escassos raios de sol invadiam a sala, adormeceu no último suspiro de inocência.

[Madjer]
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura

Portas Abertas


             Arrancou as portas. Arrancadas parecia mais convidativo, ameaçador. Arranjou ali uma cadeira. Um pedaço do cano longo se mostrava obscuro e suntuoso.
            O casarão remoto, agora sem portas, parecia mais antigo. As paredes descascadas contrastavam com a expressão do Velho. Ali se montara rapaz, fizera patrimônio.
            - Minha honra, desde que aqui me acheguei, eu mesmo que fiz!
            - Eu sei, sei!
            - E um cabra desse acha que pode se impor!
            Fora ameaçado. Logo ele, amigo de coronel e comerciante, dono das casas, das terras da cidadezinha nova.
            O Velho reclamava da vista. A idade avançada e o trabalho que ainda exigia um bocado roubavam-no a pouca saúde. Mas teimava, lutava contra os infortúnios, resolvia se fosse necessário resolver. Os anos cruzavam irremediavelmente, mas restava a força do espírito, do orgulho que liderava mais.
            - Essa minha vista tá escurinha...
            As entradas do casarão ficaram abertas, dia e noite. Foi período de expectativa. Até que elas se fechassem, cumprir-se-ia ali um fadário.
            O outro velho, dono da casa da frente, bruto demais, por isso mesmo cheio de inimizades. Era um palavreado que só ele.
            - Esse velhinho tá se achando que governa. Meto-lhe nas fuças!
            - Homi... olha que valentia é força!
            - Entro é com tudo!
            O Velho quando soube, o martelo ecoou num estampido denso. As portas do casarão postas a baixo. O outro velho, quando entrava em casa, se deparou com aquelas portas imensas, pesadonas.
            - Que se foi?
            - Ele derribou as portas, sozinho.
            - ...
            - Inda anunciou: homi com ele se resolve é com as portas abertas!
            E o Velho esperou, esperou... Passava a tarde. Só entrava quando as luzes se apagavam. E foi muito andamento que isso persistiu. O outro velho, introvertido. Caminhava, olhava pouco para os lados. Um olho terrível o seguia.
            Em noite de festa, uns tantos que persistiam em vadiar, se reuniram no banco de frente ao casarão. Foi quando viram o Velho correr.
            - Mas olhe só, o velho ainda tem pé!
            Acertara-o bem no pé da nuca. E proclamava:
            - Homi comigo é de portas abertas!
            Chegou com o lampião, o rosto do homem parecia novo demais. As portas abertas, mas o Velho estava atento. Por isso mesmo que só bastou um disparo. Mas o homem parecia novo demais. Coçou a cabeça, bocejou qualquer desgraça, passou a mão na vista, mas teve tempo de pensar que era isso mesmo.
            - Meter-se às escondidas...
            De manhã cedo, um e outro cumprimentando o Velho.
            - Meu velho! Soube do feito. O homi inda tá cheio de vida!
            - Que nada... Olhe que eu errei o tiro.

[Madjer]
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura

As Habilidades de ser eu


I

eu passo
confuso
no fuso
do meu
itinerário.

                                             II

                                             acabo esbarrando em mim
                                             quando de mim me desvio
                                             no viés em que não sou.

             III

            estou habilitado!
            habito o outro curso
            em que sou confinado.

                             IV

                            subo os degraus
                           do meu íntimo
                           seguro na mão
                           que corre
                           o corrimão.

                                           V

                                           mudando de lado
                                           ladeio em tamanhos
                                           os eus divididos
                                          dos precisos lanhos.

[Madjer]
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura

O Beijo

             Concordou com os três. Primeiro porque se dizia namorada de um e queria provar o gosto – pela primeira vez – do beijo dele. Segundo porque era puta.
            - Eu te quero muito. Ofereci uma música pra ti na rádio.
            - ...
            - O menino besta. Quê que tem?!
            Tentava agradar, mas não conseguia disfarçar a cara lasciva de desejo. Acertavam o local, tinha que ser onde ninguém pudesse os ver, onde ninguém pudesse pressentir a presença deles. E tudo fora ajustado perfeitamente, quase uma estratégia de guerra, mas não haveria perdas. E ela louca pra que alguém visse, mas só quando estivesse com o “namorado”, queria provar aos outros, mais que a si mesma, pois realmente gostava loucamente dele, todavia, sabiam da alcunha dela, e era difícil lavar a honra com um “namorado” com dois amantes de brinde.
            - No campo então! De sete horas viu!?
            O “namorado”, o mais tranqüilo, talvez porque soubesse que com ele seria fácil, os outros dois que se arranjassem na hora, ele já conseguira convencer ela pra que aceitasse os três, e ela só aceitou porque fora ele que pedira.
            - Mas vamos fazer o seguinte. Primeiro vai o ***. Depois vais tu e por fim eu. Assim ela vai ter que fazer com vocês até chegar a minha vez. Dizia isso sentindo-se um campeão, um estrategista perfeito. Não haverá perdas! E tentava controlar a risada, ninguém podia saber que eles ali estavam.
            Ela já chegou abraçando o “namorado”. Tentou trocar algumas palavras, mas foi prontamente repreendida antes que cantasse a música que havia oferecido. Respirou desoladamente, pois já havia enchido os pulmões para cantar. Só restou cerrar os olhos, consumindo-se de lágrimas, e deixar o ar escapar. Mas provar o beijo dele era mais violento. Necessitava que ele fosse dela apenas uma vez. Não necessitava mais comprovar nada pra ninguém, era só estar perto dele, provar do beijo. Quis encostar-se, olhar-lhe mais próximo, inventava formas de protelar o início da estrada que haveria de trilhar até chagar e dedicar-se a ele.  Tomar posse do abraço, memorizar-lhe o cheiro, o calor dos braços, o peso dos ombros. Ouriçava-se só em pensar na barbinha rala beijando sua nuca. Devorava-se por dentro, nem se lembrava dos outros, que fizessem! Seriam esquecidos na hora, procuraria relembrar cada detalhe do “namorado” quando estivesse esquecendo-se nos outros. Os olhos esverdeados de bandido, os lábios finos, os cabelos escuros; queria com as mãos percorrer-lhe a cabeça, apoiá-las em sua nuca. Encaixar suas pernas nas dele, e deixar-se consumir. Mas o beijo... O beijo era o que mais importava. O beijo seria a redenção de todas as mentiras que até ali ousara empreender. O beijo do “namorado”, que ela sentia-se loucamente apaixonada. Faria um labirinto de seus lábios, molhados, lentamente sobrepondo o lábio no dele, movimentando firmemente de um lado para o outro, demorando em sentir os doces movimentos que ele saberia, conduzindo vagarosamente a língua até a boca dele, ele retribuindo, até que as duas se prendessem em constantes diálogos... Perdia-se nisso tudo, que nem percebeu que o primeiro já terminara.
            O segundo vinha inquieto, mas cretino. Ela o olhou com os olhos tão inocentes que ele percebeu e quis sentir-se culpado de algo, mas não sabia o quê.
            - Fica de costas vai!
            E ela fechou novamente os olhos e toda a espera voltava a sua mente. Mas o segundo, sujo e mais cretino, dizia-lhe obscenidades que lhe atrapalhou os sonhos. E sentiu um estremecimento que a fez gemer. Ele riu, ela acompanhou sem saber o porquê. Tentava concentrar-se em algo diverso mas uma angústia de tempo e prazer e não acreditava na vida real e era tudo como antes e uma angústia de gozo cerrando os dentes cravando as unhas e sentia escorrer um mel em sua boca uma angústia maldita e geral feia ou alegre prendendo o grito e o hálito quente... ah! Quase chorou, mas desfeita a farsa, calou na alma o prazer.
            E chegou a vez dele. Tão meigos os seus olhos que ela nem desconfiou. Os olhos concentravam-se profundamente. E ela procurava o beijo, e ele escapava. Ela avançava a boca, ele virava o rosto, tentou segurar-lhe o queixo, ele baixou a cabeça. E tentava salvar a espera como um soldado com esperanças na vitória, e cada movimento dele era uma estocada, um tiro queimando, a boca escondia-se, o rosto opunha-se ao dela, ela avançava os lábios, ele olhava pro céu, e tentava e tentava desesperadamente e nenhuma resposta aos seus abalos. E ele firme, ereto, sem entradas, estúpido, e a coitada já não sonhava mais, tentava realizar tudo, mas tudo fugia das mãos, tão próximo, só para ferir intensamente. Até que seus lábios encontraram-se. Ele arfando em pleno gozo, esqueceu a boca como esqueceu quem ela era. E ela timidamente tentou um movimento. Antes que ele respondesse... ela abriu tristemente os olhos...




[Madjer]
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura

A Hora do Despetar


À hora do despertar
nada justifica
o círculo roxo
a inscrição voraz
o peito exausto
a letargia das mãos em quietos,
oníricos
e
abandonados movimentos...

A tua pele branca
queima na manhã
a minha pele ávida
do calor dos teus beijos nos meus.

E eu não desperto com palavras.
Tu firmas docilmente os teus olhos
apenas no que tudo em mim sente:
no aquietar-se das mãos
no que meu hálito te estremece
no que a boca exige:
os teus
os somente teus
beijos que despertam nos meus.

E repousamos na memória,
por todo o dia,
o que a pele já não justifica,
pois há tudo aquilo
que até escapa a confissão do eu te amo,
pois há tudo aquilo
que não se traduz na expressão do eu te amo,
pois nem todas as palavras esquecidas
justificam
nem na pele, nem nos olhos, nem nos braços
a eternidade de quem ama
junto a primeira cor da madrugada.

[Madjer]
Read More 1 Comment | Postado por Tecendo a Escritura

...

***


Escobar entrou quando Bentinho saiu...
_____

- E aí, como foi?!
- Esqueceu a cueca e o gozo...
_____

- E aí, ele é bom?
- Sabe somar, não pensa em multiplicar, adora subtrair, mas...
sinceramente... é péssimo em dividir!
_____

- Professor, o senhor poderia...
- Eu não estou aqui...
_____

- Professor, o que devo escrever agora?
- Salve-se quem puder!!!
_____

O ciúmes o empurrou pela janela enquanto ela subia de elevador.
_____

O poeta suicidou-se a caminho da editora.
_____

- 1,2,3 e... (O sinal abriu).
_____

- Benzinho, eu morro por você...
- Mas não enterrará o defunto!
_____

- Benzinho, te darei tudo o que quiseres...
- Casa!
_____

- Ei má bó lá?
- Bó má sóoo...
_____

- Quero te dizer as coisas mais lindas do mundo...
- Êita, o Paranjana!
_____

Ela tem toda a beleza que o mundo pode proporcionar, e nenhuma vergonha na cara.
_____

Nos opostos da sala: ela com fome e ele com sono.
_____

Nos opostos da sala: uma com água na boca, a outra mordendo os lábios.
_____

Nos opostos da sala: ele dizia que sim, o outro dizia também.
_____

- Alô telefonista?!!!
- Lero-lero, lero-lero...
_____

- É AGORA!!! É AGORA!!! (A TV desliga e o sleep nunca mais será o mesmo).
_____

- Joãozinho, coloquemos pedacinhos de pão no caminho. (Os passarinhos nunca mais serão os mesmos).

[Madjer]

***
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura


Memória

Como num grande museu
onde línguas incomuns
se comunicam em cores

a tessitura dos sonhos
queimava na fornalha
da locomotiva ardente.

O senhor não estava lá.
O cimento do invisível
desloca quadros da parede.

O senhor não estava lá?
Alguns cantavam amores
sob as luzes do semáforo.

A esquecida luz do poeta
arranhava a noite
de todos os que só dormem.

Os filósofos e as suas
preces incessantemente
assassinando os autores.

Num grande laboratório
as esculturas erguiam-se
prestes a beijar o céu.

Esquecia-se o francês,
amava-se em español,
o chinês beijava o holandês.

Como num grande museu
o segredo de muitos homens
compartilhavam o silêncio,

na pureza do silêncio
já teciam-se mil palavras,
mas cada quebra-cabeça.

[Madjer]
Read More 0 comentários | Postado por Tecendo a Escritura
Postagens mais antigas Página inicial

Color Paper

  • About
      About me. Edit this in the options panel.
  • Quem somos nós

    " vamos nos tornando pouco compreendidos por aquelas pessoas inteligentes que não sabem que o artista vive só,que o valor absoluto das coisas que vê não importa para ele, que a escala de valores só pode ser encontrada nele mesmo."



    (Marcel Proust)

    Escritores

    • Alice M. Frota (1)
    • Ana Claudia (3)
    • Ananda (7)
    • Camila Sâmia (8)
    • Cid (4)
    • Conto (10)
    • Diálogo (1)
    • Gil Sousa (4)
    • hai-cai (4)
    • Jaci Guerra (4)
    • Jesus Ximenes (6)
    • João Paulo (9)
    • Joelson Sampaio (3)
    • José Ailson Lemos (2)
    • Layana (4)
    • Lili (3)
    • Luciana Braga (10)
    • Luciene (3)
    • Madjer (9)
    • Memoria (1)
    • Memória (6)
    • Micro-conto (13)
    • Nathan Matos (7)
    • O que é a escritura? (9)
    • Poema de Amor (9)
    • Priscilla Falcao (1)
    • roberto (6)
    • Soneto (7)
    • Sonho (3)
    • Tatiane Sousa (6)
    • Texto dramático (3)

    Arquivos do Blog

    • ▼ 2010 (113)
      • ▼ dezembro (4)
        • Poema-imagem O OLHAR espelho                      ...
        • “Conversando aos infinitos”
        • "Paixão"
        • "Paixão"
      • ► novembro (38)
      • ► outubro (36)
      • ► setembro (35)

    Tecendo a Escritura

    [+/-]

    Essência

    Nos cadernos que me servem de confissões
    nas folhas em que me consumo espalhadas pela mesa
    no íntimo dos rascunhos dos meus versos
    habita a tua essência.

    E possui vida comum a minha
    nas coisas mais fundamentais
    na busca de versos fundamentais
    nas coisas que habitam o meu lar.

    A tua essência gravou-se em minhas mãos
    fundiu-se a feição do meu quarto.

    A tua essência permanece em meus lençóis
    quando compartilho com os sonhos
    a quintessência da tua própria visão.

    [Madjer]

    [+/-]

    A Tristeza Perfeita

    Sabia-se perfeitamente triste: o ar resfolegava no peito, os membros sem vontade própria, a cabeça abandonada, o olhar cansado da perversidade da TV, do tempo, da sala nua. As músicas diziam tudo, absolutamente tudo o que não podia ser ouvido: “Esse meu choro, não quero no peito, arde por dentro e rola na face...”; “Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima...”; “Eu quero roubar no seu jogo, eu já arraiei os seus discos...”; tudo, definitivamente tudo. Emudecia-se com os mais e os porquês. Admitia o silêncio, mesmo que este penetrasse lancinando os seus ouvidos, o acolhia dificilmente porque precisava engolir tudo a seco.
    O dia fora bom. Mas o céu fora de esquadro, as horas fora de tom, as cores fora de ordem. Precisou abandonar o trabalho, os amigos, precisou abandonar-se. E o fez logo que começara o dia, tinha direito a tudo, estava perfeitamente triste. Percorreu alguns quarteirões antes que o pensamento fugisse para demasiado distante, necessitava que o pensamento aquiescesse ao propriamente físico, ora!, a sua tristeza perfeita atacava diretamente a carne! Então que tudo fosse perfeitamente triste.
    A cabeça pesava de tal modo que preferiu uma vodka. Sentou-se à mesa do centro. Ali permanecia parafusando sua dor, mas antes que concluí-se, ela entrou devastando tudo. O dano maior foi que não o percebeu, chegou quietamente e tomou um local bem próximo ao dele, e não o olhou. Ele baixou a cabeça, ou foi antes uma pedra caindo num abismo! – a única ação que se deu conta é que contava os dedos descontroladamente... e ela não o olhava. “Mas será que ela não me viu? Finge! Sinto que finge! Please God! Help me!”. Levantou-se, e persistia a cabeça baixa. Foi até o banheiro. Um pouco de água na cara. Olhou-se no espelho buscando atingir alguma arma para que também a ferisse, mas, quando se lembrou de sua fraqueza, outra levada de água arrastou tudo pelo ralo da pia, e a única arma que lhe restou – a que necessitava de muita força para carregá-la – foi ainda sua cara de espanto. Voltou com a resolução de desenterrar tudo daquele buraco que cavaram e agora só escondia-se nele, somente dentro dele, sem que o pudesse tampá-lo por inteiro. “Diga-me! Se me ferir – ora! O que pode mais pesar sobre mim? – sou o responsável! Mas prefiro saber tudo de uma vez! Não me obrigue...”, e ela não o olhava. Então ele percebeu aquele sorriso ardiloso. E ela concentrou todo o seu peso sobre o olhar dele. Ele então procura alguma outra direção, carregando os olhos para um lado e para o outro, mas não conseguia mais o chão. A sua tristeza perfeita transformava-o em algo que ele nunca pôde reconhecer que havia dentro dele. Desesperou-se e efetivamente virou o copo com vodka num trago breve e sem piedade de si. A cara enrubesceu tão repentinamente, que não pode tocar em sua face. “Diga-me, por favor!...”. O punho seco sobre a mesa e ela permanecia o silêncio daquele sorriso ardiloso...
    A sua tristeza perfeita nunca mais fora a mesma. Agora ele permanecia tão fissurado, ou até mesmo mais apaixonado por ela, que vivia pelas ruas desencontrando os amigos, a família, a si mesmo. A única razão agora seria encontrar ele mesmo a resposta, ou sabe-se lá o que procurava em meio aquele abandono total. “Diga-me, por favor!”. E ela, que o elegeu ao seu governo absoluto, escondia-se no único lugar em que ele não conseguia alcançá-la por completo: dentro do buraco que ele próprio cavara.

    [Madjer]

    [+/-]

    Concessão

    Pôde enfiar profundamente o fio da lâmina no peito... sem esperas, sem concessões. Arrancou, desentranhando voluptuosamente talvez os últimos pedaços daquele corpo já sem vida, lasso, funesto, e outras sentenças que ela procurava adicionar ao que abandonou em suas mãos. Imaginava que ali seria o fim. A redenção de toda a dor... No meio do peito! – concebia que era no meio do peito, o lado direito ou o lado esquerdo deixou para as metáforas – no meio da carne!
                – A...deus?...
                A palavra não o importunou pelo fato de significar o gesto ou sinal de despedida ou separação física entre sujeitos; sim pelo elevador atarracado em sua garganta: as engrenagens enferrujadas, o ranger queimando as cordas vocais, a saliva seca. Pesou como um pé furioso esmagando uma barata que se esconde entre os livros da estante e busca salvar-se desabotoando as asas. E ela, sem concessões, odiava terrivelmente as baratas.
                Quando se viu na rua sem sol, sem cor, sem chão, procurou andar pausadamente e respirar sem culpas, pois pesava em suas mãos o que ela o entregou sem nenhuma chance de vida. Mas ainda assim, sentiu-se responsável, e chorou. Não a queixa dos infelizes, mas a dos perdidos. Sentia, de súbito, os soluços clamando-lhe algo informe; os olhos encarnados, respondendo ao que experimentava o sangue na face a percorrer-lhe abrasadamente. Mas ainda tentou respirar sem culpas e deu um suspiro fundamente... perdendo os olhos nas ruas sem fim, sem fim...
                Sua casa agora era uma alta torre. Perdeu-se ali para encontrar uma solução que pudesse reavivar o corpaço lhe entregue. Intentou ondas eletromagnéticas, e a vida sempre ocupada; esforçou-se na cirurgia de uma letra delineada, e o talento que outrora relegou, não o fez por milagres um virtuose; pensou ainda uma oração potente... mas as forças de suas crenças não o permitiu ir muito longe, apenas: “Por favor meu Deus!”, mas em meio a uma confusão de lágrimas.
                Vai até a estante, recolhe o livro espesso, abre-o como quem abre a geladeira depois de uma caminhada num deserto de sal: “Era um botão feliz / Sorrindo para o Azul, zombando da matéria...”. Apercebeu-se que uma barata desabotoava as asas, mas... Uh! Conseguiu encerrá-la nas mãos e sem concessões a pôs na boca, mastigou um pouco; o hálito rançoso, os olhos abertíssimos concentrando-se na luz amarela da lâmpada. Engoliu e sentou-se. Antes que amanhecesse, pois que uns escassos raios de sol invadiam a sala, adormeceu no último suspiro de inocência.

    [Madjer]

    [+/-]

    Portas Abertas


                 Arrancou as portas. Arrancadas parecia mais convidativo, ameaçador. Arranjou ali uma cadeira. Um pedaço do cano longo se mostrava obscuro e suntuoso.
                O casarão remoto, agora sem portas, parecia mais antigo. As paredes descascadas contrastavam com a expressão do Velho. Ali se montara rapaz, fizera patrimônio.
                - Minha honra, desde que aqui me acheguei, eu mesmo que fiz!
                - Eu sei, sei!
                - E um cabra desse acha que pode se impor!
                Fora ameaçado. Logo ele, amigo de coronel e comerciante, dono das casas, das terras da cidadezinha nova.
                O Velho reclamava da vista. A idade avançada e o trabalho que ainda exigia um bocado roubavam-no a pouca saúde. Mas teimava, lutava contra os infortúnios, resolvia se fosse necessário resolver. Os anos cruzavam irremediavelmente, mas restava a força do espírito, do orgulho que liderava mais.
                - Essa minha vista tá escurinha...
                As entradas do casarão ficaram abertas, dia e noite. Foi período de expectativa. Até que elas se fechassem, cumprir-se-ia ali um fadário.
                O outro velho, dono da casa da frente, bruto demais, por isso mesmo cheio de inimizades. Era um palavreado que só ele.
                - Esse velhinho tá se achando que governa. Meto-lhe nas fuças!
                - Homi... olha que valentia é força!
                - Entro é com tudo!
                O Velho quando soube, o martelo ecoou num estampido denso. As portas do casarão postas a baixo. O outro velho, quando entrava em casa, se deparou com aquelas portas imensas, pesadonas.
                - Que se foi?
                - Ele derribou as portas, sozinho.
                - ...
                - Inda anunciou: homi com ele se resolve é com as portas abertas!
                E o Velho esperou, esperou... Passava a tarde. Só entrava quando as luzes se apagavam. E foi muito andamento que isso persistiu. O outro velho, introvertido. Caminhava, olhava pouco para os lados. Um olho terrível o seguia.
                Em noite de festa, uns tantos que persistiam em vadiar, se reuniram no banco de frente ao casarão. Foi quando viram o Velho correr.
                - Mas olhe só, o velho ainda tem pé!
                Acertara-o bem no pé da nuca. E proclamava:
                - Homi comigo é de portas abertas!
                Chegou com o lampião, o rosto do homem parecia novo demais. As portas abertas, mas o Velho estava atento. Por isso mesmo que só bastou um disparo. Mas o homem parecia novo demais. Coçou a cabeça, bocejou qualquer desgraça, passou a mão na vista, mas teve tempo de pensar que era isso mesmo.
                - Meter-se às escondidas...
                De manhã cedo, um e outro cumprimentando o Velho.
                - Meu velho! Soube do feito. O homi inda tá cheio de vida!
                - Que nada... Olhe que eu errei o tiro.

    [Madjer]

    [+/-]

    As Habilidades de ser eu


    I

    eu passo
    confuso
    no fuso
    do meu
    itinerário.

                                                 II

                                                 acabo esbarrando em mim
                                                 quando de mim me desvio
                                                 no viés em que não sou.

                 III

                estou habilitado!
                habito o outro curso
                em que sou confinado.

                                 IV

                                subo os degraus
                               do meu íntimo
                               seguro na mão
                               que corre
                               o corrimão.

                                               V

                                               mudando de lado
                                               ladeio em tamanhos
                                               os eus divididos
                                              dos precisos lanhos.

    [Madjer]

    [+/-]

    O Beijo

                 Concordou com os três. Primeiro porque se dizia namorada de um e queria provar o gosto – pela primeira vez – do beijo dele. Segundo porque era puta.

                - Eu te quero muito. Ofereci uma música pra ti na rádio.
                - ...
                - O menino besta. Quê que tem?!
                Tentava agradar, mas não conseguia disfarçar a cara lasciva de desejo. Acertavam o local, tinha que ser onde ninguém pudesse os ver, onde ninguém pudesse pressentir a presença deles. E tudo fora ajustado perfeitamente, quase uma estratégia de guerra, mas não haveria perdas. E ela louca pra que alguém visse, mas só quando estivesse com o “namorado”, queria provar aos outros, mais que a si mesma, pois realmente gostava loucamente dele, todavia, sabiam da alcunha dela, e era difícil lavar a honra com um “namorado” com dois amantes de brinde.
                - No campo então! De sete horas viu!?
                O “namorado”, o mais tranqüilo, talvez porque soubesse que com ele seria fácil, os outros dois que se arranjassem na hora, ele já conseguira convencer ela pra que aceitasse os três, e ela só aceitou porque fora ele que pedira.
                - Mas vamos fazer o seguinte. Primeiro vai o ***. Depois vais tu e por fim eu. Assim ela vai ter que fazer com vocês até chegar a minha vez. Dizia isso sentindo-se um campeão, um estrategista perfeito. Não haverá perdas! E tentava controlar a risada, ninguém podia saber que eles ali estavam.
                Ela já chegou abraçando o “namorado”. Tentou trocar algumas palavras, mas foi prontamente repreendida antes que cantasse a música que havia oferecido. Respirou desoladamente, pois já havia enchido os pulmões para cantar. Só restou cerrar os olhos, consumindo-se de lágrimas, e deixar o ar escapar. Mas provar o beijo dele era mais violento. Necessitava que ele fosse dela apenas uma vez. Não necessitava mais comprovar nada pra ninguém, era só estar perto dele, provar do beijo. Quis encostar-se, olhar-lhe mais próximo, inventava formas de protelar o início da estrada que haveria de trilhar até chagar e dedicar-se a ele.  Tomar posse do abraço, memorizar-lhe o cheiro, o calor dos braços, o peso dos ombros. Ouriçava-se só em pensar na barbinha rala beijando sua nuca. Devorava-se por dentro, nem se lembrava dos outros, que fizessem! Seriam esquecidos na hora, procuraria relembrar cada detalhe do “namorado” quando estivesse esquecendo-se nos outros. Os olhos esverdeados de bandido, os lábios finos, os cabelos escuros; queria com as mãos percorrer-lhe a cabeça, apoiá-las em sua nuca. Encaixar suas pernas nas dele, e deixar-se consumir. Mas o beijo... O beijo era o que mais importava. O beijo seria a redenção de todas as mentiras que até ali ousara empreender. O beijo do “namorado”, que ela sentia-se loucamente apaixonada. Faria um labirinto de seus lábios, molhados, lentamente sobrepondo o lábio no dele, movimentando firmemente de um lado para o outro, demorando em sentir os doces movimentos que ele saberia, conduzindo vagarosamente a língua até a boca dele, ele retribuindo, até que as duas se prendessem em constantes diálogos... Perdia-se nisso tudo, que nem percebeu que o primeiro já terminara.
                O segundo vinha inquieto, mas cretino. Ela o olhou com os olhos tão inocentes que ele percebeu e quis sentir-se culpado de algo, mas não sabia o quê.
                - Fica de costas vai!
                E ela fechou novamente os olhos e toda a espera voltava a sua mente. Mas o segundo, sujo e mais cretino, dizia-lhe obscenidades que lhe atrapalhou os sonhos. E sentiu um estremecimento que a fez gemer. Ele riu, ela acompanhou sem saber o porquê. Tentava concentrar-se em algo diverso mas uma angústia de tempo e prazer e não acreditava na vida real e era tudo como antes e uma angústia de gozo cerrando os dentes cravando as unhas e sentia escorrer um mel em sua boca uma angústia maldita e geral feia ou alegre prendendo o grito e o hálito quente... ah! Quase chorou, mas desfeita a farsa, calou na alma o prazer.
                E chegou a vez dele. Tão meigos os seus olhos que ela nem desconfiou. Os olhos concentravam-se profundamente. E ela procurava o beijo, e ele escapava. Ela avançava a boca, ele virava o rosto, tentou segurar-lhe o queixo, ele baixou a cabeça. E tentava salvar a espera como um soldado com esperanças na vitória, e cada movimento dele era uma estocada, um tiro queimando, a boca escondia-se, o rosto opunha-se ao dela, ela avançava os lábios, ele olhava pro céu, e tentava e tentava desesperadamente e nenhuma resposta aos seus abalos. E ele firme, ereto, sem entradas, estúpido, e a coitada já não sonhava mais, tentava realizar tudo, mas tudo fugia das mãos, tão próximo, só para ferir intensamente. Até que seus lábios encontraram-se. Ele arfando em pleno gozo, esqueceu a boca como esqueceu quem ela era. E ela timidamente tentou um movimento. Antes que ele respondesse... ela abriu tristemente os olhos...




    [Madjer]

    [+/-]

    A Hora do Despetar


    À hora do despertar
    nada justifica
    o círculo roxo
    a inscrição voraz
    o peito exausto
    a letargia das mãos em quietos,
    oníricos
    e
    abandonados movimentos...

    A tua pele branca
    queima na manhã
    a minha pele ávida
    do calor dos teus beijos nos meus.

    E eu não desperto com palavras.
    Tu firmas docilmente os teus olhos
    apenas no que tudo em mim sente:
    no aquietar-se das mãos
    no que meu hálito te estremece
    no que a boca exige:
    os teus
    os somente teus
    beijos que despertam nos meus.

    E repousamos na memória,
    por todo o dia,
    o que a pele já não justifica,
    pois há tudo aquilo
    que até escapa a confissão do eu te amo,
    pois há tudo aquilo
    que não se traduz na expressão do eu te amo,
    pois nem todas as palavras esquecidas
    justificam
    nem na pele, nem nos olhos, nem nos braços
    a eternidade de quem ama
    junto a primeira cor da madrugada.

    [Madjer]

    [+/-]

    ...

    ***


    Escobar entrou quando Bentinho saiu...
    _____

    - E aí, como foi?!
    - Esqueceu a cueca e o gozo...
    _____

    - E aí, ele é bom?
    - Sabe somar, não pensa em multiplicar, adora subtrair, mas...
    sinceramente... é péssimo em dividir!
    _____

    - Professor, o senhor poderia...
    - Eu não estou aqui...
    _____

    - Professor, o que devo escrever agora?
    - Salve-se quem puder!!!
    _____

    O ciúmes o empurrou pela janela enquanto ela subia de elevador.
    _____

    O poeta suicidou-se a caminho da editora.
    _____

    - 1,2,3 e... (O sinal abriu).
    _____

    - Benzinho, eu morro por você...
    - Mas não enterrará o defunto!
    _____

    - Benzinho, te darei tudo o que quiseres...
    - Casa!
    _____

    - Ei má bó lá?
    - Bó má sóoo...
    _____

    - Quero te dizer as coisas mais lindas do mundo...
    - Êita, o Paranjana!
    _____

    Ela tem toda a beleza que o mundo pode proporcionar, e nenhuma vergonha na cara.
    _____

    Nos opostos da sala: ela com fome e ele com sono.
    _____

    Nos opostos da sala: uma com água na boca, a outra mordendo os lábios.
    _____

    Nos opostos da sala: ele dizia que sim, o outro dizia também.
    _____

    - Alô telefonista?!!!
    - Lero-lero, lero-lero...
    _____

    - É AGORA!!! É AGORA!!! (A TV desliga e o sleep nunca mais será o mesmo).
    _____

    - Joãozinho, coloquemos pedacinhos de pão no caminho. (Os passarinhos nunca mais serão os mesmos).

    [Madjer]

    ***

    [+/-]



    Memória

    Como num grande museu
    onde línguas incomuns
    se comunicam em cores

    a tessitura dos sonhos
    queimava na fornalha
    da locomotiva ardente.

    O senhor não estava lá.
    O cimento do invisível
    desloca quadros da parede.

    O senhor não estava lá?
    Alguns cantavam amores
    sob as luzes do semáforo.

    A esquecida luz do poeta
    arranhava a noite
    de todos os que só dormem.

    Os filósofos e as suas
    preces incessantemente
    assassinando os autores.

    Num grande laboratório
    as esculturas erguiam-se
    prestes a beijar o céu.

    Esquecia-se o francês,
    amava-se em español,
    o chinês beijava o holandês.

    Como num grande museu
    o segredo de muitos homens
    compartilhavam o silêncio,

    na pureza do silêncio
    já teciam-se mil palavras,
    mas cada quebra-cabeça.

    [Madjer]

    Tecnologia do Blogger.
    Ver meu perfil completo
    • ▼ 2010 (113)
      • ▼ dezembro (4)
        • Poema-imagem O OLHAR espelho                      ...
        • “Conversando aos infinitos”
        • "Paixão"
        • "Paixão"
      • ► novembro (38)
      • ► outubro (36)
      • ► setembro (35)
  • Search






    • Home
    • Posts RSS
    • Comments RSS
    • Edit

    © Copyright Tecendo a Escritura. All rights reserved.
    Designed by FTL Wordpress Themes | Bloggerized by FalconHive.com
    brought to you by Smashing Magazine

    Back to Top