Tecendo a Escritura
Então eu encontrei você,e tudo o que acontecia era sentido (e não falado) de uma forma tão fluida que eu sentia meu coração escorrer de felicidade no fluxo de um córrego. A partir dali nos tornaríamos uma poção miscível em uma só e que faria render sua fórmula. Tudo era tão natural e tão completo que era arrastado por essa plenitude fluvial.
Mas o tempo passou e um dia eu soube que você queria ir; que queria caminhar em outra direção. E o que senti não foi raiva, rancor ou orgulho ferido, mas uma melancolia insustentável, que com sua gravidade plutônica pesou sobre meus ombros e transformou tudo ao redor em um limbo turvo, cinza e pesado, envolto pelas cargas elétricas de uma nebulosa.
E a minha tristeza era tão infinita que passou a construir e afetar meu mundo, com seus raios de ondas-gama que coloriram meu lugar e a mim própria de tons de rosa e anil como a fase azul de Picasso. Meu corpo passou a ser um tênue raio de cores tristes.
Foi quando você apareceu com aquela mulher, mas - mais uma vez - tudo foi sentido e não falado. Você ainda iria ser Eu, só não estava preparado - eu sabia que não estava preparado - mas ficamos diante um do outro e pude sentir a aquarela adocicada do teu olho bonito. Foi quando você me encarou e disse:
"Meu amor, há beleza demais para se ver."
Agora eu sabia que podia viver de detalhes e erguer o meu próprio mundo a partir deles. Lançei vôo envolta por um globo de energia luminosa que deixava seu rastro dourado pelo espaço. E eu me permiti controlar meu próprio sonho, vivendo sensações de paz e alegria incomensuráveis.
E foi assim que eu tive o meu primeiro sonho vivido.
Esse tremor musicado pela melodia das palavras as transcende; transcende o “ela”. Suas ondas sonoras atingem os confins do inefável e escapam às suas mãos.
Atormentada por essa melodia, ela tenta torná-la concreta tecendo a escritura. Mas dar forma a uma massa amorfa é uma caminhada trôpega e desencontrada: é o fio de Ariadne que não encontra a solução do labirinto; é a manta de Penélope que é construída e desfeita a cada dia; é tecer o infinito sem o julgamento das Moiras para determinar seu desfecho.
E nessa busca em espiral, Ela sente que o propósito de tecer é voltar à paz amniótica do embrião em seu início. É, num mundo onírico infantil, a luta para atravessar os sete céus e aprisionar um punhado de poeira das estrelas nas mãos.
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Eu rodopiava em loopings numa velocidade supersônica, num céu que se configurava como um mosaico de cores distorcidas e vibrantes, conferindo ao ocaso a beleza de uma alucinação. E a minha alegria espalhava-se através de partículas em suspensão. Era uma nuvem de pólen que trazia paz e equilíbrio à minha euforia caótica.
Então eu encontrei você,e tudo o que acontecia era sentido (e não falado) de uma forma tão fluida que eu sentia meu coração escorrer de felicidade no fluxo de um córrego. A partir dali nos tornaríamos uma poção miscível em uma só e que faria render sua fórmula. Tudo era tão natural e tão completo que era arrastado por essa plenitude fluvial.
Mas o tempo passou e um dia eu soube que você queria ir; que queria caminhar em outra direção. E o que senti não foi raiva, rancor ou orgulho ferido, mas uma melancolia insustentável, que com sua gravidade plutônica pesou sobre meus ombros e transformou tudo ao redor em um limbo turvo, cinza e pesado, envolto pelas cargas elétricas de uma nebulosa.
E a minha tristeza era tão infinita que passou a construir e afetar meu mundo, com seus raios de ondas-gama que coloriram meu lugar e a mim própria de tons de rosa e anil como a fase azul de Picasso. Meu corpo passou a ser um tênue raio de cores tristes.
Foi quando você apareceu com aquela mulher, mas - mais uma vez - tudo foi sentido e não falado. Você ainda iria ser Eu, só não estava preparado - eu sabia que não estava preparado - mas ficamos diante um do outro e pude sentir a aquarela adocicada do teu olho bonito. Foi quando você me encarou e disse:
"Meu amor, há beleza demais para se ver."
Agora eu sabia que podia viver de detalhes e erguer o meu próprio mundo a partir deles. Lançei vôo envolta por um globo de energia luminosa que deixava seu rastro dourado pelo espaço. E eu me permiti controlar meu próprio sonho, vivendo sensações de paz e alegria incomensuráveis.
E foi assim que eu tive o meu primeiro sonho vivido.
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I Found a Reason |
Sempre que aquela angústia se espalha por seu corpo sob a forma de um formigamento virulento, seu “eu” torna-se “ela”. O embrião encharcado de sangue, vida e vísceras transporta-se para a esfera da palavra, multiplicando suas células e (des)organizando-se em um mundo etéreo, com sua própria estrutura atômica, nessa desordenada alquimia do impalpável.
Esse tremor musicado pela melodia das palavras as transcende; transcende o “ela”. Suas ondas sonoras atingem os confins do inefável e escapam às suas mãos.
Atormentada por essa melodia, ela tenta torná-la concreta tecendo a escritura. Mas dar forma a uma massa amorfa é uma caminhada trôpega e desencontrada: é o fio de Ariadne que não encontra a solução do labirinto; é a manta de Penélope que é construída e desfeita a cada dia; é tecer o infinito sem o julgamento das Moiras para determinar seu desfecho.
E nessa busca em espiral, Ela sente que o propósito de tecer é voltar à paz amniótica do embrião em seu início. É, num mundo onírico infantil, a luta para atravessar os sete céus e aprisionar um punhado de poeira das estrelas nas mãos.
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