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Tecendo a Escritura

Olá, Nosso Blog é uma janela de acesso aos textos escritos no Laboratório de Criação Literária, in-disciplina desgovernada pelo Cid, professor da Universidade Federal do Ceará. Boa leitura!
Mostrando postagens com marcador Ananda. Mostrar todas as postagens
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Hai-cais

(I)
A vida amanhece em um pranto de chorões
Irrompe em uma paixão de peônias
E envelhece com a doçura das cerejeiras.

(II)
Névoa na montanha:
flutuar de rouxinóis
e ninfas dançantes.

(III)
Flores de outono:
pra cantar tanta beleza
servem os hai-cais.

(IV)
Córregos tão claros
com carpas na correnteza:
rubis no cristal.

(V)
Por toda a floresta
as folhas de chá exalam
fecundos aromas.
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Micro-contos

Tensão

“Eu recomendo!
Falou a mãe sobre o namorado da filha.

Separação

A partir daí sua vida virou um filme mudo.

Ciúme

E o seu sofrimento gotejava em uma cascata de continhas brilhantes.

Análise. 

“Você fala demais!”
Disse o terapeuta.
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Memória

A grande verdade é que eu vivo de memória. Minha vida é feita de uma constante batalha contra as lembranças: para apagá-las, para guardá-las e sobretudo para vivê-las. E essas memórias são feitas principalmente de pessoas. Guardo as primeiras vezes impregnadas pelos detalhes mais triviais de todas as mulheres que amei, de modo que luto contra a névoa espessa e difusa da memória para evitar que os astros prateados de cada lembrança escapem dos meus dedos.

Eles propagam seu brilho há anos-luz daqui. Em cada um deles seu lusco-fusco cintilante me lembra de cartas, conversas, abraços, beijos, cheiros, pele, braços – vontade de enlaçar-se nesses braços – vozes, bocas, corpos. E todos esses astros são pérolas encrustadas no meu coração. Logo, arrancá-los implicaria num sofrimento sangrento. Pessoas, assim como lembranças, são únicas, e não podem ser alienadas.

Algumas dessas pérolas precisaram ser arrancadas com a violência que se rasga uma ostra, mas para preservação de mim mesmo. Hoje elas estão perdidas no buraco negro da memória, e, por mais que eu tente chamá-las, elas já foram aglutinadas para virar ondas-gama nos confins do passado. Afinal, assim como a vida se decompõe, nem as pérolas escapam ao nada. 

Sofro com lembranças persistentes, perdidas ou roubadas, que sucederam-se em outras vidas. Mas não há nada pior do que não viver as lembranças que eu mesmo criei. As que nasceram do meu próprio coração e estão doendo, esperando para serem vividas.

E então lembro dos teus olhos coloridos de azul-calmaria. Afinal, todo o teu corpo é calma e fragilidade.
Logo fui arrastado pela correnteza do teu azul aquático, e tudo o que minhas parcas estrelas-vagalume conseguem brilhar no vão dilatado da minha memória são abraços desconcertados, teus olhos brilhantes, que me negavam em tons de verde, azul e cinza; pedaços de uma sequência ébria que em vão ainda tento reconstruir. 

E no meu coração os astros de futuras memórias agonizam como bebês que nascem mortos. Porque todos os sóis, corações e desenhos que fiz pra você ainda estão na minha gaveta. Todas as serenatas ainda vão esperar mortificadas garganta adentro, de mão dadas com as cordas silenciadas do meu violão. 

Existe mal mais feroz do que amar lembranças do desconhecido?
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Nevoeiro


Com quantos amigos se faz um bom dia?
De quantas lágrimas nasce a alegria?
De quantos sorrisos brota o cansaço?
De quantos momentos surge a euforia?

Em sinuosas vias o amor aparece.
Dor corrosiva: a inquietação cresce.
Por tua pele minha vida evanesce
Meu corpo todo, um esforço uma prece:

Que meus olhos não se esvaiam em vazio,
Que meu coração não seja cinismo,
Que meu destino não seja o abismo.

Mas em meus ouvidos só ouço vento.
Em minha alma só palpita corpo.
Uma vez esquecimento, já é morto.
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Ausência

Há muito tempo o amor sofre ameaças:
Ser limitado, aprisionado, definido.
Como as areias oscilantes de uma ampulheta,
ser sempre o reverso de outro amor,
ranço do que já foi.

                       ***

O amor não é e jamais será boa coisa.
É um poço de areia movediça:
uma vez imerso, não há mais volta.
Tudo passa a ser uma ânsia febril por presença
como o viciado em abstinência por sua heroína.
O passar das horas será marcado
pelo resquício de um sonho que
deixa um gosto bom na boca.
E a existência será uma busca
faminta e alucinada
por antever o cheiro de braços
e sentir o tremor de uma voz
doce e grave nos ouvidos.
Os sentidos serão inebriados
pelas gotículas embaçadas de um nevoeiro
onde nos perdemos nos labirintos de atenções e carinhos.

                       ***

Mas toda presença leva a uma ausência:
De chamas para cinzas.
De neblina para chuva ácida.
De amantes para amigos.
De “te amo” para "bom dia”.
Da boca só escorrerão palavras amargas
E todos os momentos serão maculados
pela fuligem do esquecimento.
O mundo será surdo e distorcido como uma vida submersa.
As cartas de amor serão serragem
a se desperdiçar na multidões.

                       ***

Sedimentam-se os grãos arenosos do tempo,
e a eles se misturam flocos de amor e esperança.
Todo o amor uma vez depositado em alguém
se tornará pedra.
Quando somos jovens, acreditamos
que sempre há um novo começo
Mas verdadeiros começos
nascem poucas vezes.
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Sonho Vivido

Eu rodopiava em loopings numa velocidade supersônica, num céu que se configurava como um mosaico de cores distorcidas e vibrantes, conferindo ao ocaso a beleza de uma alucinação. E a minha alegria espalhava-se através de partículas em suspensão. Era uma nuvem de pólen que trazia paz e equilíbrio à minha euforia caótica.

Então eu encontrei você,e tudo o que acontecia era sentido (e não falado) de uma forma tão fluida que eu sentia meu coração escorrer de felicidade no fluxo de um córrego. A partir dali nos tornaríamos uma poção miscível em uma só e que faria render sua fórmula. Tudo era tão natural e tão completo que era arrastado por essa plenitude fluvial.

Mas o tempo passou e um dia eu soube que você queria ir; que queria caminhar em outra direção. E o que senti não foi raiva, rancor ou orgulho ferido, mas uma melancolia insustentável, que com sua gravidade plutônica pesou sobre meus ombros e transformou tudo ao redor em um limbo turvo, cinza e pesado, envolto pelas cargas elétricas de uma nebulosa.

E a minha tristeza era tão infinita que passou a construir e afetar meu mundo, com seus raios de ondas-gama que coloriram meu lugar e a mim própria de tons de rosa e anil como a fase azul de Picasso. Meu corpo passou a ser um tênue raio de cores tristes.

Foi quando você apareceu com aquela mulher, mas - mais uma vez - tudo foi sentido e não falado. Você ainda iria ser Eu, só não estava preparado - eu sabia que não estava preparado - mas ficamos diante um do outro e pude sentir a aquarela adocicada do teu olho bonito. Foi quando você me encarou e disse:
"Meu amor, há beleza demais para se ver."

Agora eu sabia que podia viver de detalhes e erguer o meu próprio mundo a partir deles. Lançei vôo envolta por um globo de energia luminosa que deixava seu rastro dourado pelo espaço. E eu me permiti controlar meu próprio sonho, vivendo sensações de paz e alegria incomensuráveis.

E foi assim que eu tive o meu primeiro sonho vivido.
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I Found a Reason

Sempre que aquela angústia se espalha por seu corpo sob a forma de um formigamento virulento, seu “eu” torna-se “ela”. O embrião encharcado de sangue, vida e vísceras transporta-se para a esfera da palavra, multiplicando suas células e (des)organizando-se em um mundo etéreo, com sua própria estrutura atômica, nessa desordenada alquimia do impalpável.

Esse tremor musicado pela melodia das palavras as transcende; transcende o “ela”. Suas ondas sonoras atingem os confins do inefável e escapam às suas mãos.

Atormentada por essa melodia, ela tenta torná-la concreta tecendo a escritura. Mas dar forma a uma massa amorfa é uma caminhada trôpega e desencontrada: é o fio de Ariadne que não encontra a solução do labirinto; é a manta de Penélope que é construída e desfeita a cada dia; é tecer o infinito sem o julgamento das Moiras para determinar seu desfecho.

E nessa busca em espiral, Ela sente que o propósito de tecer é voltar à paz amniótica do embrião em seu início. É, num mundo onírico infantil, a luta para atravessar os sete céus e aprisionar um punhado de poeira das estrelas nas mãos.
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    Hai-cais

    (I)
    A vida amanhece em um pranto de chorões
    Irrompe em uma paixão de peônias
    E envelhece com a doçura das cerejeiras.

    (II)
    Névoa na montanha:
    flutuar de rouxinóis
    e ninfas dançantes.

    (III)
    Flores de outono:
    pra cantar tanta beleza
    servem os hai-cais.

    (IV)
    Córregos tão claros
    com carpas na correnteza:
    rubis no cristal.

    (V)
    Por toda a floresta
    as folhas de chá exalam
    fecundos aromas.

    [+/-]

    Micro-contos

    Tensão

    “Eu recomendo!
    Falou a mãe sobre o namorado da filha.

    Separação

    A partir daí sua vida virou um filme mudo.

    Ciúme

    E o seu sofrimento gotejava em uma cascata de continhas brilhantes.

    Análise. 

    “Você fala demais!”
    Disse o terapeuta.

    [+/-]

    Memória

    A grande verdade é que eu vivo de memória. Minha vida é feita de uma constante batalha contra as lembranças: para apagá-las, para guardá-las e sobretudo para vivê-las. E essas memórias são feitas principalmente de pessoas. Guardo as primeiras vezes impregnadas pelos detalhes mais triviais de todas as mulheres que amei, de modo que luto contra a névoa espessa e difusa da memória para evitar que os astros prateados de cada lembrança escapem dos meus dedos.

    Eles propagam seu brilho há anos-luz daqui. Em cada um deles seu lusco-fusco cintilante me lembra de cartas, conversas, abraços, beijos, cheiros, pele, braços – vontade de enlaçar-se nesses braços – vozes, bocas, corpos. E todos esses astros são pérolas encrustadas no meu coração. Logo, arrancá-los implicaria num sofrimento sangrento. Pessoas, assim como lembranças, são únicas, e não podem ser alienadas.

    Algumas dessas pérolas precisaram ser arrancadas com a violência que se rasga uma ostra, mas para preservação de mim mesmo. Hoje elas estão perdidas no buraco negro da memória, e, por mais que eu tente chamá-las, elas já foram aglutinadas para virar ondas-gama nos confins do passado. Afinal, assim como a vida se decompõe, nem as pérolas escapam ao nada. 

    Sofro com lembranças persistentes, perdidas ou roubadas, que sucederam-se em outras vidas. Mas não há nada pior do que não viver as lembranças que eu mesmo criei. As que nasceram do meu próprio coração e estão doendo, esperando para serem vividas.

    E então lembro dos teus olhos coloridos de azul-calmaria. Afinal, todo o teu corpo é calma e fragilidade.
    Logo fui arrastado pela correnteza do teu azul aquático, e tudo o que minhas parcas estrelas-vagalume conseguem brilhar no vão dilatado da minha memória são abraços desconcertados, teus olhos brilhantes, que me negavam em tons de verde, azul e cinza; pedaços de uma sequência ébria que em vão ainda tento reconstruir. 

    E no meu coração os astros de futuras memórias agonizam como bebês que nascem mortos. Porque todos os sóis, corações e desenhos que fiz pra você ainda estão na minha gaveta. Todas as serenatas ainda vão esperar mortificadas garganta adentro, de mão dadas com as cordas silenciadas do meu violão. 

    Existe mal mais feroz do que amar lembranças do desconhecido?

    [+/-]

    Nevoeiro


    Com quantos amigos se faz um bom dia?
    De quantas lágrimas nasce a alegria?
    De quantos sorrisos brota o cansaço?
    De quantos momentos surge a euforia?

    Em sinuosas vias o amor aparece.
    Dor corrosiva: a inquietação cresce.
    Por tua pele minha vida evanesce
    Meu corpo todo, um esforço uma prece:

    Que meus olhos não se esvaiam em vazio,
    Que meu coração não seja cinismo,
    Que meu destino não seja o abismo.

    Mas em meus ouvidos só ouço vento.
    Em minha alma só palpita corpo.
    Uma vez esquecimento, já é morto.

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    Ausência

    Há muito tempo o amor sofre ameaças:
    Ser limitado, aprisionado, definido.
    Como as areias oscilantes de uma ampulheta,
    ser sempre o reverso de outro amor,
    ranço do que já foi.

                           ***

    O amor não é e jamais será boa coisa.
    É um poço de areia movediça:
    uma vez imerso, não há mais volta.
    Tudo passa a ser uma ânsia febril por presença
    como o viciado em abstinência por sua heroína.
    O passar das horas será marcado
    pelo resquício de um sonho que
    deixa um gosto bom na boca.
    E a existência será uma busca
    faminta e alucinada
    por antever o cheiro de braços
    e sentir o tremor de uma voz
    doce e grave nos ouvidos.
    Os sentidos serão inebriados
    pelas gotículas embaçadas de um nevoeiro
    onde nos perdemos nos labirintos de atenções e carinhos.

                           ***

    Mas toda presença leva a uma ausência:
    De chamas para cinzas.
    De neblina para chuva ácida.
    De amantes para amigos.
    De “te amo” para "bom dia”.
    Da boca só escorrerão palavras amargas
    E todos os momentos serão maculados
    pela fuligem do esquecimento.
    O mundo será surdo e distorcido como uma vida submersa.
    As cartas de amor serão serragem
    a se desperdiçar na multidões.

                           ***

    Sedimentam-se os grãos arenosos do tempo,
    e a eles se misturam flocos de amor e esperança.
    Todo o amor uma vez depositado em alguém
    se tornará pedra.
    Quando somos jovens, acreditamos
    que sempre há um novo começo
    Mas verdadeiros começos
    nascem poucas vezes.

    [+/-]

    Sonho Vivido

    Eu rodopiava em loopings numa velocidade supersônica, num céu que se configurava como um mosaico de cores distorcidas e vibrantes, conferindo ao ocaso a beleza de uma alucinação. E a minha alegria espalhava-se através de partículas em suspensão. Era uma nuvem de pólen que trazia paz e equilíbrio à minha euforia caótica.

    Então eu encontrei você,e tudo o que acontecia era sentido (e não falado) de uma forma tão fluida que eu sentia meu coração escorrer de felicidade no fluxo de um córrego. A partir dali nos tornaríamos uma poção miscível em uma só e que faria render sua fórmula. Tudo era tão natural e tão completo que era arrastado por essa plenitude fluvial.

    Mas o tempo passou e um dia eu soube que você queria ir; que queria caminhar em outra direção. E o que senti não foi raiva, rancor ou orgulho ferido, mas uma melancolia insustentável, que com sua gravidade plutônica pesou sobre meus ombros e transformou tudo ao redor em um limbo turvo, cinza e pesado, envolto pelas cargas elétricas de uma nebulosa.

    E a minha tristeza era tão infinita que passou a construir e afetar meu mundo, com seus raios de ondas-gama que coloriram meu lugar e a mim própria de tons de rosa e anil como a fase azul de Picasso. Meu corpo passou a ser um tênue raio de cores tristes.

    Foi quando você apareceu com aquela mulher, mas - mais uma vez - tudo foi sentido e não falado. Você ainda iria ser Eu, só não estava preparado - eu sabia que não estava preparado - mas ficamos diante um do outro e pude sentir a aquarela adocicada do teu olho bonito. Foi quando você me encarou e disse:
    "Meu amor, há beleza demais para se ver."

    Agora eu sabia que podia viver de detalhes e erguer o meu próprio mundo a partir deles. Lançei vôo envolta por um globo de energia luminosa que deixava seu rastro dourado pelo espaço. E eu me permiti controlar meu próprio sonho, vivendo sensações de paz e alegria incomensuráveis.

    E foi assim que eu tive o meu primeiro sonho vivido.

    [+/-]

    I Found a Reason

    Sempre que aquela angústia se espalha por seu corpo sob a forma de um formigamento virulento, seu “eu” torna-se “ela”. O embrião encharcado de sangue, vida e vísceras transporta-se para a esfera da palavra, multiplicando suas células e (des)organizando-se em um mundo etéreo, com sua própria estrutura atômica, nessa desordenada alquimia do impalpável.

    Esse tremor musicado pela melodia das palavras as transcende; transcende o “ela”. Suas ondas sonoras atingem os confins do inefável e escapam às suas mãos.

    Atormentada por essa melodia, ela tenta torná-la concreta tecendo a escritura. Mas dar forma a uma massa amorfa é uma caminhada trôpega e desencontrada: é o fio de Ariadne que não encontra a solução do labirinto; é a manta de Penélope que é construída e desfeita a cada dia; é tecer o infinito sem o julgamento das Moiras para determinar seu desfecho.

    E nessa busca em espiral, Ela sente que o propósito de tecer é voltar à paz amniótica do embrião em seu início. É, num mundo onírico infantil, a luta para atravessar os sete céus e aprisionar um punhado de poeira das estrelas nas mãos.

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