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Tecendo a Escritura

Olá, Nosso Blog é uma janela de acesso aos textos escritos no Laboratório de Criação Literária, in-disciplina desgovernada pelo Cid, professor da Universidade Federal do Ceará. Boa leitura!
Mostrando postagens com marcador Cid. Mostrar todas as postagens
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Soneto claro

Pelejo para ser claro na escrita
mas o claro prontamente se irrita
e os signos claros vão se dispersando
se despegando, claro, de um comando.

E tantos são que não mais se unificam
neste soneto e não na boca-rica
e como tal permita um entendimento
que almejo assim desesperadamente.

Já claramente agora entendo e vejo
que ver e entender não se admite
que fogem-me da mão, da mente os signos

e partem para além de onde os previ
sem deixar sequer rastros e indícios
sem direção, peão em rotação.
Read More 2 comentários | Postado por Tecendo a Escritura

Como se escreve um poema de amor


Pensar que foste
pensar que voltaste
pensar que foste outra vez
pensar que voltaste de novo
pensar que mais uma vez me deixaste

assim um poema não se escreve
deixar o pensar
chamar as palavras

digam-me palavras como se escreve um poema de amor
que não sofra de perda
que não cante de beijos
que não lembre saudade
que não aqueça um abraço
que não trescale a alcova
que não deseje ardente
que não busque intenso o corpo
para amar amando sem palavras

digam-me palavras como se escreve um poema de amor
em que eu não esteja
em que este pobre corpo não se manifeste
em que este sentimento não se sustente
em que as madrugadas de vigília não se enunciem
em que a distância não se pronuncie
em que o coração não se sobressalte
em que o corpo ainda não morra frio
para guardar o que restou, posto que minguado

amar amando
guardar o amanho
só se faz sem palavras
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Algoritmo


Vou escrever o meu sonho. Sonhei que tu ias embora. Mas como escrever o que não houve? Se ao menos pudesse ser possível ires mesmo embora. Bem, há duas possibilidades.
Uma, seria a de eu chorar tua partida, aí o sonho seria um pesadelo, em que choraria a noite toda vendo as horas passarem em meu relógio, vendo minhas promessas de amor irem contigo, que me olvidarás, pensando em todas as coisas que restaram por dizer, em todas as horas que ficaram por viver. Quero enterrar essa possibilidade, bem enterrada. Assim, só resta uma, que é a da impossibilidade, uma que se desdobra em muitas.
Então que seja escrita a impossibilidade: não choro tua partida, ou choro tua não-partida. Se tu partes, não choro; se não partes, choro. No primeiro caso, podes partir voluntariamente ou empurrada por mim, podes comprar um bilhete às escondidas e partir na mudez da noite; ou posso eu mesmo comprar teu bilhete, sentindo nisso um prazer meio perverso, mas ainda prazer. Se tu não partes, não há bilhetes, ou ainda há, com rasgos arrependidos e assento vago. E sobretudo um triste retorno, visto que minha alegria é não ficares.
Livrar-me de ti, eis o sonho. Livrar-me do real impositivo que amarra meu conto, que determina a disposição das palavras, a sequência narrativa, o que se deve dizer, o conselho a dar, a experiência a transmitir. Quanto mais tento esvaziar a escritura, mais vazia ela fica, até não se suster de pé, nem deitada, nem de forma alguma.
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Ut pictura poiesis




Como na pintura
pinta-se o pintor


poeta-se o poeta
na poesia


a natureza:
ela me pinta
apresenta-se
em tela


vejo o mundo
ele me escreve
mostra-se
em texto


ela se pinta em mim
ele se escreve em mim


problema: que fazer com isso
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    Pelejo para ser claro na escrita
    mas o claro prontamente se irrita
    e os signos claros vão se dispersando
    se despegando, claro, de um comando.

    E tantos são que não mais se unificam
    neste soneto e não na boca-rica
    e como tal permita um entendimento
    que almejo assim desesperadamente.

    Já claramente agora entendo e vejo
    que ver e entender não se admite
    que fogem-me da mão, da mente os signos

    e partem para além de onde os previ
    sem deixar sequer rastros e indícios
    sem direção, peão em rotação.

    [+/-]

    Como se escreve um poema de amor


    Pensar que foste
    pensar que voltaste
    pensar que foste outra vez
    pensar que voltaste de novo
    pensar que mais uma vez me deixaste

    assim um poema não se escreve
    deixar o pensar
    chamar as palavras

    digam-me palavras como se escreve um poema de amor
    que não sofra de perda
    que não cante de beijos
    que não lembre saudade
    que não aqueça um abraço
    que não trescale a alcova
    que não deseje ardente
    que não busque intenso o corpo
    para amar amando sem palavras

    digam-me palavras como se escreve um poema de amor
    em que eu não esteja
    em que este pobre corpo não se manifeste
    em que este sentimento não se sustente
    em que as madrugadas de vigília não se enunciem
    em que a distância não se pronuncie
    em que o coração não se sobressalte
    em que o corpo ainda não morra frio
    para guardar o que restou, posto que minguado

    amar amando
    guardar o amanho
    só se faz sem palavras

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    Algoritmo


    Vou escrever o meu sonho. Sonhei que tu ias embora. Mas como escrever o que não houve? Se ao menos pudesse ser possível ires mesmo embora. Bem, há duas possibilidades.
    Uma, seria a de eu chorar tua partida, aí o sonho seria um pesadelo, em que choraria a noite toda vendo as horas passarem em meu relógio, vendo minhas promessas de amor irem contigo, que me olvidarás, pensando em todas as coisas que restaram por dizer, em todas as horas que ficaram por viver. Quero enterrar essa possibilidade, bem enterrada. Assim, só resta uma, que é a da impossibilidade, uma que se desdobra em muitas.
    Então que seja escrita a impossibilidade: não choro tua partida, ou choro tua não-partida. Se tu partes, não choro; se não partes, choro. No primeiro caso, podes partir voluntariamente ou empurrada por mim, podes comprar um bilhete às escondidas e partir na mudez da noite; ou posso eu mesmo comprar teu bilhete, sentindo nisso um prazer meio perverso, mas ainda prazer. Se tu não partes, não há bilhetes, ou ainda há, com rasgos arrependidos e assento vago. E sobretudo um triste retorno, visto que minha alegria é não ficares.
    Livrar-me de ti, eis o sonho. Livrar-me do real impositivo que amarra meu conto, que determina a disposição das palavras, a sequência narrativa, o que se deve dizer, o conselho a dar, a experiência a transmitir. Quanto mais tento esvaziar a escritura, mais vazia ela fica, até não se suster de pé, nem deitada, nem de forma alguma.

    [+/-]

    Ut pictura poiesis




    Como na pintura
    pinta-se o pintor


    poeta-se o poeta
    na poesia


    a natureza:
    ela me pinta
    apresenta-se
    em tela


    vejo o mundo
    ele me escreve
    mostra-se
    em texto


    ela se pinta em mim
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