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Tecendo a Escritura

Olá, Nosso Blog é uma janela de acesso aos textos escritos no Laboratório de Criação Literária, in-disciplina desgovernada pelo Cid, professor da Universidade Federal do Ceará. Boa leitura!

Mas não se mata uma lembrança?


C. detém-se estática por longo instante. Quando foi a última vez que chorei? Ela tenta lembrar parada bem no meio da cozinha. Muita coisa deixada pra trás, estancada. Foi o jeito. Toma a faca com displicência e abre uma babosa suculenta. O centro pegajoso e fedorento traz à tona a desforra: a lâmina enfiada no ventre dele, suas órbitas tremeluzindo surpresa e desespero mudo. O tempo não descoloriu nenhum detalhe, pelo contrário, destila em bálsamo.

José Ailson Lemos
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A viagem

Caiu. Cabeça bateu. Para o sétimo andar inferior comprou passagem. As roupas brindes foram.
                                                                                                                                   Jesus Ximenes.
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Vergonha

Elegante estava. Sentou barulho ouviu.
                                            Jesus Ximenes.
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Pinga

Tomou uma, duas, três...
Chegou em casa comida não tinha.
                                     Jesus Ximenes.        
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Memória

Como num grande museu
onde línguas incomuns
se comunicam em cores

a tessitura dos sonhos
queimava na fornalha
da locomotiva ardente.

O senhor não estava lá.
O cimento do invisível
desloca quadros da parede.

O senhor não estava lá?
Alguns cantavam amores
sob as luzes do semáforo.

A esquecida luz do poeta
arranhava a noite
de todos os que só dormem.

Os filósofos e as suas
preces incessantemente
assassinando os autores.

Num grande laboratório
as esculturas erguiam-se
prestes a beijar o céu.

Esquecia-se o francês,
amava-se em español,
o chinês beijava o holandês.

Como num grande museu
o segredo de muitos homens
compartilhavam o silêncio,

na pureza do silêncio
já teciam-se mil palavras,
mas cada quebra-cabeça.

[Madjer]
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Memória(r)


satirizo.
pernas pro ar, cabelos ao ar, tudo jogado
tudo sentido, sem sentido, embaralhar

enquanto a minha ira persegue
as lembranças discernem,
e não são laçadas, trançadas, enjauladas, se perdem

ecoa num balançar antigo, findo
sem limite, a dor e a falta
da sorte de não lembrar

morto. solto, no Infundo chão. Ecoa. Sem fundo.oa.oa.oa.
e ela ainda se ria quando cantava satirizando minha ira
                        na beira do sem fundo chão

coisa esquisita – relembrar
plasmar no seu eu – aguardar
ulular para a lua – se entregar

a memória persegue – inverte – subverte
o pensamento fugidio
destroça os tijolos, levanta as cortinas, esconde as imagens
            do imaginar
filha safada da inconsciência que me deixa irado,
            mas não te renego – maldita
                                           – o que quero
                                                    é
                                               memoriar.

Nathan Matos
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Aquele que eu amo

Aquele que eu amo tem cheiro de hortelã
Não me olha nos olhos, mas sabe o que eu sinto
Aquele que eu amo me abraça toda manhã
Sabe o que eu quero, o que eu sou e pressinto.

Aquele que eu amo vive na minha memória
Não faz parte dessa história que um dia eu escrevi
Aquele que eu amo conhece minha trajetória
E sabe que tudo que eu sonho, eu mesma nunca vi.

E quando tento descrevê-lo é grandioso o sofrimento
Faltam-me palavras, ainda que sobre inspiração
Pois aquele que eu amo é fugidio como o vento
Confuso em minha memória, limite do sim e do não.

Com aquele que eu amo vivi cada momento
Cada doce sentimento que é impossível recontar
Pois cada descrição é outro acontecimento
Assim como são inúmeras as formas de se amar.

Luciana Braga (22.09.10).
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Suplício

Quando as lágrimas faltam e temos que completar o silêncio com as palavras.
Luciana Braga (Em 29. 09.10).
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Eu te alcanço!


Na estrada amarela dos cercados cercantes, caminho calmo e solidário. ninguém aparece. a estrada é longa, não tenho pressa. curvas não há, ladeiras, por vezes. caminho. caminho. cataventos. cercas. sem caminhos. única reta desconcertando meu ser. êta estrada sem fim, o que é que vou fazer? na noite, no dia, a reta permanece calma e fugidia. a brisa lenta, o vento forte, sem tufões ou furacões, longe de desastres físicos, intempestuosos. quando durmo, espaço o tempo, admiro o absurdo e acordo trêmulo, suspirando medo. não, não me pergunto onde. dormir no meio da estrada amarela não vou. Foram anos, nem sei quantos e como ali chegou. o andante, caminhante, anda, tresvario, endoidando. o Amor que lhe chamou. a estrada é mesmo sem fim, meio sem cor. ele é que viu um pássaro fujão e pensou ser um beijaflor de cor amarela, olhou pra estrada e a ourou. Mesmo sabendo, digo, Essa estrada tem fim, tem curva, saliência, buraco no meio dela, uma hora há de vir. nem me lembro mais quem me chamou. Ecoa o vento Amor...or...or... Olho os lados, cercas, cercas, cercas, cercas, cercas, acordou. O horizonte acordou! Cria jeito de gente! vailamedeus! Correu, correu, passou dia, passou noite, cansou. Vi uma curva, tenho certeza, não é oásis, nem fortaleza, vi um vulto que ali dobrou, Eu te alcanço, maldito Amor!

Nathan Matos
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Felicidade


no cabaré a puta sorria...

Nathan Matos
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Dragões

Mas não eram dragões?
Enlouqueceu Sancho?

Nathan Matos
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Brasil


Terra à vista, gritou Cabral.
E nadou em direção às índias.

Nathan Matos
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Mulher

           Aos cinquenta, ela pensa: "Não deveria ter deixado que o fogo da razão transformasse em cinza os meus selvagens sonhos puros".

Luciana Braga (29.09.10).
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Custo-benefício

-Mãe, me traz um copo de leite!

-Se eu for aí...te dou uma tamancada..

-Mãe, quando a senhora vier me dar uma tamancada...
me traz um copo de leite.
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À espera do fim

Deitou-se no trilho e esperou o trem passar.


Textura: Cleomir Alencar

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Viva

Aprecie a vida
Por quem o beijou
Ame quem o amou
Beije sua amada.

Viva o presente
Prove o instante
Ame o montante
Viva o que sente.

Aprecie o tempo
Deixe que o vento
Leve o pensamento.

Viva o pequeno
Deixe o grande
Pra gente mais grande.

         Jesus Ximenes.



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Escrever?

Escrever? Pra que escrever?
Se escrevo o que não tenho.
Já que a solidão é o motivo de escrever.
Ela é a marca do que não tenho.

Quando escrevo estou descontento.
O descontento da falta e do vazio.
Estes me trazem o sofrimento,
Que aumentam o meu vazio.

Escrever é chorar a solidão.
Ela me traz a escrita,
Pra eu deixar vagando nesse mundão.

Escrever é resgatar o passado.
Como também o que deixou de existir,
Pra poder melhorar no meu escrever.


Jesus Ximenes.
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O sinal de trânsito

Hoje é dia de tristeza, não, não é mais um dia triste dos milhares dos quais já vivi, ou melhor, é o pior dia de minha longa vida de solidão. Neste cruzamento eu moro há muitos anos e sempre vejo a mesma coisa todos os santos dias, carros vêem, carros vão e pra completar são mal educados, sempre andam fazendo barulho e poluindo o planeta.
Não faço nada mais do que informá-los de que é hora de parar, para que os outros apressados prossigam, e depois advirto que eles continuem caminhando e volto a soltar fogo pelos olhos, para que os mal educados parem.
Agora imaginem sempre fazer o mesmo, que coisa mais chata, o que me salva são as árvores que ficam nos canteiros das avenidas, mesmo assim elas me aborrecem, pois sempre são as mesmas. Claro que as coitadinhas sofrem mais do que eu, já que são prejudicadas por essas coisas cinzentas que os barulhentos liberam quando estão correndo e gritando, que saco, hem? Isso me faz sofrer por mim e pelas coitadinhas.
Para completar sempre vêm uns bichos que se movem através de dois gravetos secos e todos pintados de cor de fogo, pra roubar as partes das árvores, ainda bem que elas resistem aos maus tratos que as fazem. Dá-me uma vontade grande de morrer quando os bichos de fogo estão cortando alguma delas pelo tronco, porque já sei que não vão mais viverem.
Sabe gente? Elas são as únicas coisas que não mexem comigo, já que sempre ficam no mesmo cantinho se mexendo com o passar do vento, ruim é quando um pedacinho delas voa até os meus olhos, aí fico todo agoniado, mais o vento logo passa e leva pra bem longe de mim. Isso não me faz ficar zangado, pois sei que não é por que elas querem.
Agora imaginem em um dia de domingo pela madrugada, nenhum barulhento, nenhum bicho cor de fogo, nem vento e as coitadinhas imóveis e eu aqui como sempre, atuante, alternando com os olhos de fogo, com o olho do medo e o olho de se escapar. Pisco para o nada passar. Assim vivo e viverei até a morte me alcançar, já que sofro da tal longevidade. Estou no desespero, clamando ao amigo ferrugem que me leve o quanto antes e acabe com toda minha solidão e com o meu sofrimento.  

                                                                                                          Jesus Ximenes.
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Não me nego.
Sou carne. Pessoa. Gente.
Mistura do tudo e do nada.
Dentro e fora. Escuro e claro.

Rejeitos do limiar
entre proibido e permitido.
Contexto: jogo de plural
e complexo interesse.

Discurso disfarça motivação..
para ação.. pára a ação..
desintegra no concreto
Delicado estado do Ser

Esfumaçado elo entre 
o eu e o mundo. 




                                                                Tatiane Sousa  

foto: Cleomir Alencar  
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Estudo para uma figura derradeira

pés queimados
carne viva
unhas retorcidas
crostas mortas
quadro vivo
corpo na cama
fios saltados da face
um coelho homem
inesquecível
esvai-se porém
sua imagem
antes da catástrofe
detalhes e traços
desbotam imprecisos
eis uma hipótese:
ele se torna sensação


José Ailson Lemos
Imagem: Francis Bacon
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UM POEMA DE AMOR


Foram tantos poemas escritos para você
Pensando em seus beijos e na minha sorte
Que agora já não sei o que fazer
Não consigo entender essa ideia de morte.

Foram tantas palavras ditas em momentos de prazer
Tantas noites loucas que não voltam mais
Sentimentos e sensações que só tive com você
E agora sem ti, sinto que já não sou capaz.

E já não sou capaz de me entregar outra vez
Fazer das tuas fantasias momentos de realidade
Já não sou capaz de esquecer tudo o que você fez
Nem quero apagar nenhum momento de felicidade.

Sei que se você estivesse aqui ouvindo o que eu digo
Lembraria também dos grandes momentos de dor
Mas, sempre iria concordar intensamente comigo
Que nem só de espinhos se compõe uma flor.

Luciana Braga. (Em: 01/09/10).
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"A FORÇA DO MAR"

Beatriz morava em uma típica cidadezinha do interior, com seus bichos, plantas, lagos, montanhas e um infinito céu azul. Adorava o lugar em que vivia, mas sentia falta de uma coisa que ela só conhecia por causa dos livros e da televisão: o mar.
Dom Casmurro era o livro que ela mais gostava, sobretudo, pela presença constante do mar. Beatriz nunca vira descrição mais profunda quanto àquela dos “olhos de ressaca”, que tanto a inquietavam e fascinavam.
Ela sempre teve um desejo intenso de um dia conhecer o mar. Quando lhe perguntavam o porquê de tal desejo, ela dizia: “Quero conhecer o mar, por que deve ser algo esplêndido, colossal. Acho fascinante o movimento que das águas revoltas e o barulho que a onda faz quando quebra ou bate em uma insistente pedra que cisma em cruzar se caminho, é tão vibrante quanto as batidas de um coração apaixonado.”
Quando sua mãe ouvia isso, dizia apenas: “Deixe de sonhos bobos, menina, e vá procurar o quê fazer!”
Mas, para ela não era um sonho bobo, ao contrário, era o encontro do infinito, pois ela era como uma ave que almeja realizar vários vôos, ainda que insistam em cortar suas asas.
Cortando-se as asas se impede o vôo imediato, mas não aniquila o desejo, e de tanto desejar conhecer o mar, Beatriz, certo dia sonhou... Sonhou que o mar se apresentava a sua frente, e como fizera uma mocinha loira de um filme que ela assistira certa vez, correu ao encontro do mar. Correu com tanta força, desejo e determinação que quando se deu conta já estava com o corpo quase todo molhado daquela água fria, diferente, inquieta, espumante e salgada, provocando-lhe sensações que nunca tivera antes.
O mar a envolvia como um abraço suplicante e insistentemente a puxava para dentro de si. Ela de tão envolvida e emocionada que estava nem se dava conta do perigo, simplesmente avançava como um coração desavisado e quando lembrou que nunca aprendera a nadar, sentiu um abraço apertado, sufocante, como se fosse uma serpente a envolvê-la por inteiro e sentiu pela última vez o movimento que a onda faz, levantando-nos para o alto, forçando-nos a pular, até que se afogou e conheceu as profundezas ocultas da morte.
Beatriz acordou cansada por conta das lutas incessantes para reencontrar aquela pequena luz, que ela via em sonho quando estava chegando às profundezas. Sentiu na boca um gosto salgado de morte, mas nem por isso deixou de desejar conhecer o mar, pois aquele abraço que a envolvera, aparentemente a prendendo também, fornecia-lhe uma infinita libertação que só se encontra nos inexplicáveis sonhos.

Luciana Braga. (Em: 25/08/10).
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"A Arte" inspirada no "Os corvos"

Perguntaram-me certo dia
-Onde está a arte?
-Ela é consolo ou agonia?
Ora, a arte está em toda a parte
Em cada verso, em cada melodia...
A arte está em um sorriso
Mas, ela também está no pranto
Compreendê-la não é preciso
Basta vê-la como um manto.

-Um manto que possa nos cobrir?
Mas, nunca nos proteger do frio
Meu querido! A arte é para se sentir
Não como um beijo, mas um arrepio.

E quanto ao que me perguntares
Se ela é consolo ou agonia
Eu diria que ela é como aqueles mares
Revoltos a nossa revelia.

Diria que ela é inquietação fatal
E que se queres consolo procures quem te ama
Pois a arte profunda sempre perturba no final
E ao invés de apagar, reacende a chama.

Luciana Braga.(Em 18/08/10).
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Má sorte do desejo

Magnífico instante, este que vivo, em que me perco
Os laços do desejo o querem atado, inteiro
Estão sempre a agarrá-lo, não, querem a fundo conhecê-lo.
Concebê-lo.
São pensamento,
Vão movimento.
Atado está pela memória.
Que dele só libera fagulhas de espelho.
Cortam-se os fios do desejo,
Tem-se apenas faíscas do nosso beijo
Que em vão tento sempre lembrar
Quanto mais forço o tentar
Sempre um pouco mais esqueço.
Keyla Freires
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Amor perfeito

Faço versos para ti, amor,
Tenho tudo bem perto
Lua, estrelas, noite, calor
Perfeito para o poema certo
Ensaio um começo:
“A lua te roubou a beleza,
Do teu seio a brancura
No meu peito a certeza:
Amo-te, tu e tua candura”
Retomo o pensamento
Meu amor não tem alvura
E nem me traz tanto sossego
Estes versos não são teus
Quem sabe, nem meus
Mas vão tão bem com a noite
A lua e estrelas. Quase perfeitos
Mas são amor demais
Estão muito satisfeitos.
Meu amor não é assim
Não é alvo, não é luz
Está sempre a me enganar
É de mim oculto e seduz
Volto aos versos:
Não são raros
De certa, foram já falados
Nem contudo bem rimados
Mas vão tão bem com a noite
A lua e estrelas
Mas outro poema não vem
Não tenho poema novo
Já é dia daqui a pouco
Das minhas letras
Nada de novo saiu
Agora, sem lua, estrelas
E um amor que ainda não existiu.

Keyla Freires
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Diálogo com a página em branco

Ela está lá. Sempre a me falar. Diz tantas coisas, coisas tão belas, da ordem do infinito. É sem dúvida muito tagarela, mas não tem cérebro.  Não aguento ficar em sua frente, com tantas palavras borbulhando, pulando pra fora, saltitando feito adolescentes desorientadas. Persigo-as e elas sempre escorregam. “Saem pela culatra”. E ela está sempre a me dizer coisas sobre muitas coisas. E é difícil saber o que ela me fala, do que ela me fala. Os tímpanos de minha mente são quase perfurados pela sua tagarelice e não me vem o raciocínio. Nada me vem ou tudo vem ao mesmo tempo.
A folha branca é uma maldita. Nunca diz bem as coisas.  Fala sempre por metades. Tem a voz truncada. E às vezes quase não tem voz. Mas não é porque ela calou não. Ela nunca cala. É safada. É tresloucada. Inconsciente e ciente dos danos que me causa. Danada.
E o meu papel é tentar enganá-la. Tenho que trapaceá-la. Cada palavra que ela profere, e são sempre aos montes, deve ser atada a outra, para que assim, façam sentido. Mas não dá. Chego a pensar se não seria impossível juntá-las bem bonitas, atá-las uma a uma como os nós de uma rede de pesca. Formando losangos bonitos, simétricos embora um pouco arredondados. Mas elas não deixam. Não são da ordem dos losangos, talvez. São da ordem de si mesmas. Então vou juntando as que a meu ver são parecidas, que chegam a significar seja lá o que for. E é aí que eu acho que ficam mais bonitas na desordem mesmo.
E continuo. Desisto dos losangos e parto pra outras formas geométricas ou ageométricas, ou não-formas. O importante pra mim é sempre estar em contato com essas palavras que diz a página em branco. Às vezes apenas a escuto. Ouço, ouço, ouço, ouço. Vejo os pulos das letrinhas, os pulões das palavras. Contemplo. Ouço. Amo-as. Chamo-as. Canto-as. Encanto-me. Cantam-me. Cato-as.


Keyla Freires
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Falho ato da escrita




Cresce. Verte a imagem.
Desce. Observa a branca planície.
Desafio. Linha tênue atijolada
Burburinho
                    No fim da estrada amarelada.

E devastada, a memória não dispara.
Labiríntica, és mãe acorrentada,
Não desata quando quer
                             sim
                      quando falta.                  

Nathan Matos
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Texere

Em mente em cores  
em dores amores com mantras
                                                               palavras cimento digerido como fibras para tecer o dia
matéria inútil a poesia
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confessus

Amo assim: com a natureza de um escorpião.
De cauda tesa 
pinças alçadas aos céus implorando
a scorpio natureza 
Klimt
o veneno, a dor, a dormência
 O desejo que tenho de correr tuas veias. Letal
 adormecer teu corpo

Que a toxina que em mim habita 
ao percorrer tuas veias
 te paralise momentaneamente o lado direito
 e assim possas tu somente amar
Que eu habite o teu lado gauche 
e que tu tenhas o mesmo destino do poeta
E seja eu tua poesia
   
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Ut pictura poiesis




Como na pintura
pinta-se o pintor


poeta-se o poeta
na poesia


a natureza:
ela me pinta
apresenta-se
em tela


vejo o mundo
ele me escreve
mostra-se
em texto


ela se pinta em mim
ele se escreve em mim


problema: que fazer com isso
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Amor amado armado amarelo azul amém
          Matéria  mitose Mozart
                     Outro órbita ornado horrível orla
                                Refém refaz remar rezar ruir
        Que na hora das trindades ao proferir o amém na promessa de te amar
Delvaux
               tu percorra a orla do meu corpo fazendo ruir meu desejo
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Sonho Vivido

Eu rodopiava em loopings numa velocidade supersônica, num céu que se configurava como um mosaico de cores distorcidas e vibrantes, conferindo ao ocaso a beleza de uma alucinação. E a minha alegria espalhava-se através de partículas em suspensão. Era uma nuvem de pólen que trazia paz e equilíbrio à minha euforia caótica.

Então eu encontrei você,e tudo o que acontecia era sentido (e não falado) de uma forma tão fluida que eu sentia meu coração escorrer de felicidade no fluxo de um córrego. A partir dali nos tornaríamos uma poção miscível em uma só e que faria render sua fórmula. Tudo era tão natural e tão completo que era arrastado por essa plenitude fluvial.

Mas o tempo passou e um dia eu soube que você queria ir; que queria caminhar em outra direção. E o que senti não foi raiva, rancor ou orgulho ferido, mas uma melancolia insustentável, que com sua gravidade plutônica pesou sobre meus ombros e transformou tudo ao redor em um limbo turvo, cinza e pesado, envolto pelas cargas elétricas de uma nebulosa.

E a minha tristeza era tão infinita que passou a construir e afetar meu mundo, com seus raios de ondas-gama que coloriram meu lugar e a mim própria de tons de rosa e anil como a fase azul de Picasso. Meu corpo passou a ser um tênue raio de cores tristes.

Foi quando você apareceu com aquela mulher, mas - mais uma vez - tudo foi sentido e não falado. Você ainda iria ser Eu, só não estava preparado - eu sabia que não estava preparado - mas ficamos diante um do outro e pude sentir a aquarela adocicada do teu olho bonito. Foi quando você me encarou e disse:
"Meu amor, há beleza demais para se ver."

Agora eu sabia que podia viver de detalhes e erguer o meu próprio mundo a partir deles. Lançei vôo envolta por um globo de energia luminosa que deixava seu rastro dourado pelo espaço. E eu me permiti controlar meu próprio sonho, vivendo sensações de paz e alegria incomensuráveis.

E foi assim que eu tive o meu primeiro sonho vivido.
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I Found a Reason

Sempre que aquela angústia se espalha por seu corpo sob a forma de um formigamento virulento, seu “eu” torna-se “ela”. O embrião encharcado de sangue, vida e vísceras transporta-se para a esfera da palavra, multiplicando suas células e (des)organizando-se em um mundo etéreo, com sua própria estrutura atômica, nessa desordenada alquimia do impalpável.

Esse tremor musicado pela melodia das palavras as transcende; transcende o “ela”. Suas ondas sonoras atingem os confins do inefável e escapam às suas mãos.

Atormentada por essa melodia, ela tenta torná-la concreta tecendo a escritura. Mas dar forma a uma massa amorfa é uma caminhada trôpega e desencontrada: é o fio de Ariadne que não encontra a solução do labirinto; é a manta de Penélope que é construída e desfeita a cada dia; é tecer o infinito sem o julgamento das Moiras para determinar seu desfecho.

E nessa busca em espiral, Ela sente que o propósito de tecer é voltar à paz amniótica do embrião em seu início. É, num mundo onírico infantil, a luta para atravessar os sete céus e aprisionar um punhado de poeira das estrelas nas mãos.
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O que é escrever?

   Detenho comigo uma ânsia pela leitura. Habitualmente, costumo entreter minhas horas lendo livros que me fazem rir, aprender e a conhecer-me intimamente. Sei que os textos que li me transformaram em outro ser. Passei por diversas metamorfoses e ainda passo, pois não estou pronto ou, talvez, nunca esteja. Mas há algo diferente. Sou um ser pensante. Minha imaginação flui concebendo novas idéias, maquinando planos, elaborando fórmulas e intuindo possibilidades.
    Porém, ultimamente sinto uma força pujante guiar-me por um caminho que até pouco tempo era refratário. A via do escrever. Imaginava que para realizar tão nobre arte era preciso estar num lugar inspirador a contemplar a primavera, possuir um talento nato ou ser galardoado com uma inspiração divina.
    Vejo que não. Penso. Sempre escrevi. Fico embasbacado. Escrevi desde o ventre de minha madre o meu próprio texto, que é único, verdadeiro, mágico, minha própria história que tem diversos capítulos de amor, felicidade, medo, aventuras, conquistas etc.
  Resta-me, agora, apenas reescrevê-la em folhas de papel.
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        • "A Arte" inspirada no "Os corvos"
        • Má sorte do desejo
        • Amor perfeito
        • Diálogo com a página em branco
        • Falho ato da escrita
        • Texere
        • confessus
        • Ut pictura poiesis
        • Amor amado armado amarelo azul amém          Matér...
        • Sonho Vivido
        • I Found a Reason
        • O que é escrever?

    Tecendo a Escritura

    [+/-]

    Mas não se mata uma lembrança?


    C. detém-se estática por longo instante. Quando foi a última vez que chorei? Ela tenta lembrar parada bem no meio da cozinha. Muita coisa deixada pra trás, estancada. Foi o jeito. Toma a faca com displicência e abre uma babosa suculenta. O centro pegajoso e fedorento traz à tona a desforra: a lâmina enfiada no ventre dele, suas órbitas tremeluzindo surpresa e desespero mudo. O tempo não descoloriu nenhum detalhe, pelo contrário, destila em bálsamo.

    José Ailson Lemos

    [+/-]

    A viagem

    Caiu. Cabeça bateu. Para o sétimo andar inferior comprou passagem. As roupas brindes foram.
                                                                                                                                       Jesus Ximenes.

    [+/-]

    Vergonha

    Elegante estava. Sentou barulho ouviu.
                                                Jesus Ximenes.

    [+/-]

    Pinga

    Tomou uma, duas, três...
    Chegou em casa comida não tinha.
                                         Jesus Ximenes.        

    [+/-]



    Memória

    Como num grande museu
    onde línguas incomuns
    se comunicam em cores

    a tessitura dos sonhos
    queimava na fornalha
    da locomotiva ardente.

    O senhor não estava lá.
    O cimento do invisível
    desloca quadros da parede.

    O senhor não estava lá?
    Alguns cantavam amores
    sob as luzes do semáforo.

    A esquecida luz do poeta
    arranhava a noite
    de todos os que só dormem.

    Os filósofos e as suas
    preces incessantemente
    assassinando os autores.

    Num grande laboratório
    as esculturas erguiam-se
    prestes a beijar o céu.

    Esquecia-se o francês,
    amava-se em español,
    o chinês beijava o holandês.

    Como num grande museu
    o segredo de muitos homens
    compartilhavam o silêncio,

    na pureza do silêncio
    já teciam-se mil palavras,
    mas cada quebra-cabeça.

    [Madjer]

    [+/-]

    Memória(r)


    satirizo.
    pernas pro ar, cabelos ao ar, tudo jogado
    tudo sentido, sem sentido, embaralhar

    enquanto a minha ira persegue
    as lembranças discernem,
    e não são laçadas, trançadas, enjauladas, se perdem

    ecoa num balançar antigo, findo
    sem limite, a dor e a falta
    da sorte de não lembrar

    morto. solto, no Infundo chão. Ecoa. Sem fundo.oa.oa.oa.
    e ela ainda se ria quando cantava satirizando minha ira
                            na beira do sem fundo chão

    coisa esquisita – relembrar
    plasmar no seu eu – aguardar
    ulular para a lua – se entregar

    a memória persegue – inverte – subverte
    o pensamento fugidio
    destroça os tijolos, levanta as cortinas, esconde as imagens
                do imaginar
    filha safada da inconsciência que me deixa irado,
                mas não te renego – maldita
                                               – o que quero
                                                        é
                                                   memoriar.

    Nathan Matos

    [+/-]

    Aquele que eu amo

    Aquele que eu amo tem cheiro de hortelã
    Não me olha nos olhos, mas sabe o que eu sinto
    Aquele que eu amo me abraça toda manhã
    Sabe o que eu quero, o que eu sou e pressinto.

    Aquele que eu amo vive na minha memória
    Não faz parte dessa história que um dia eu escrevi
    Aquele que eu amo conhece minha trajetória
    E sabe que tudo que eu sonho, eu mesma nunca vi.

    E quando tento descrevê-lo é grandioso o sofrimento
    Faltam-me palavras, ainda que sobre inspiração
    Pois aquele que eu amo é fugidio como o vento
    Confuso em minha memória, limite do sim e do não.

    Com aquele que eu amo vivi cada momento
    Cada doce sentimento que é impossível recontar
    Pois cada descrição é outro acontecimento
    Assim como são inúmeras as formas de se amar.

    Luciana Braga (22.09.10).

    [+/-]

    Suplício

    Quando as lágrimas faltam e temos que completar o silêncio com as palavras.
    Luciana Braga (Em 29. 09.10).

    [+/-]

    Eu te alcanço!


    Na estrada amarela dos cercados cercantes, caminho calmo e solidário. ninguém aparece. a estrada é longa, não tenho pressa. curvas não há, ladeiras, por vezes. caminho. caminho. cataventos. cercas. sem caminhos. única reta desconcertando meu ser. êta estrada sem fim, o que é que vou fazer? na noite, no dia, a reta permanece calma e fugidia. a brisa lenta, o vento forte, sem tufões ou furacões, longe de desastres físicos, intempestuosos. quando durmo, espaço o tempo, admiro o absurdo e acordo trêmulo, suspirando medo. não, não me pergunto onde. dormir no meio da estrada amarela não vou. Foram anos, nem sei quantos e como ali chegou. o andante, caminhante, anda, tresvario, endoidando. o Amor que lhe chamou. a estrada é mesmo sem fim, meio sem cor. ele é que viu um pássaro fujão e pensou ser um beijaflor de cor amarela, olhou pra estrada e a ourou. Mesmo sabendo, digo, Essa estrada tem fim, tem curva, saliência, buraco no meio dela, uma hora há de vir. nem me lembro mais quem me chamou. Ecoa o vento Amor...or...or... Olho os lados, cercas, cercas, cercas, cercas, cercas, acordou. O horizonte acordou! Cria jeito de gente! vailamedeus! Correu, correu, passou dia, passou noite, cansou. Vi uma curva, tenho certeza, não é oásis, nem fortaleza, vi um vulto que ali dobrou, Eu te alcanço, maldito Amor!

    Nathan Matos

    [+/-]

    Felicidade


    no cabaré a puta sorria...

    Nathan Matos

    [+/-]

    Dragões

    Mas não eram dragões?
    Enlouqueceu Sancho?

    Nathan Matos

    [+/-]

    Brasil


    Terra à vista, gritou Cabral.
    E nadou em direção às índias.

    Nathan Matos

    [+/-]

    Mulher

               Aos cinquenta, ela pensa: "Não deveria ter deixado que o fogo da razão transformasse em cinza os meus selvagens sonhos puros".

    Luciana Braga (29.09.10).

    [+/-]

    [+/-]

    Custo-benefício

    -Mãe, me traz um copo de leite!

    -Se eu for aí...te dou uma tamancada..

    -Mãe, quando a senhora vier me dar uma tamancada...
    me traz um copo de leite.

    [+/-]

    À espera do fim

    Deitou-se no trilho e esperou o trem passar.


    Textura: Cleomir Alencar
    

    [+/-]

    Viva

    Aprecie a vida
    Por quem o beijou
    Ame quem o amou
    Beije sua amada.

    Viva o presente
    Prove o instante
    Ame o montante
    Viva o que sente.

    Aprecie o tempo
    Deixe que o vento
    Leve o pensamento.

    Viva o pequeno
    Deixe o grande
    Pra gente mais grande.

             Jesus Ximenes.



    [+/-]

    Escrever?

    Escrever? Pra que escrever?
    Se escrevo o que não tenho.
    Já que a solidão é o motivo de escrever.
    Ela é a marca do que não tenho.

    Quando escrevo estou descontento.
    O descontento da falta e do vazio.
    Estes me trazem o sofrimento,
    Que aumentam o meu vazio.

    Escrever é chorar a solidão.
    Ela me traz a escrita,
    Pra eu deixar vagando nesse mundão.

    Escrever é resgatar o passado.
    Como também o que deixou de existir,
    Pra poder melhorar no meu escrever.


    Jesus Ximenes.

    [+/-]

    O sinal de trânsito

    Hoje é dia de tristeza, não, não é mais um dia triste dos milhares dos quais já vivi, ou melhor, é o pior dia de minha longa vida de solidão. Neste cruzamento eu moro há muitos anos e sempre vejo a mesma coisa todos os santos dias, carros vêem, carros vão e pra completar são mal educados, sempre andam fazendo barulho e poluindo o planeta.
    Não faço nada mais do que informá-los de que é hora de parar, para que os outros apressados prossigam, e depois advirto que eles continuem caminhando e volto a soltar fogo pelos olhos, para que os mal educados parem.
    Agora imaginem sempre fazer o mesmo, que coisa mais chata, o que me salva são as árvores que ficam nos canteiros das avenidas, mesmo assim elas me aborrecem, pois sempre são as mesmas. Claro que as coitadinhas sofrem mais do que eu, já que são prejudicadas por essas coisas cinzentas que os barulhentos liberam quando estão correndo e gritando, que saco, hem? Isso me faz sofrer por mim e pelas coitadinhas.
    Para completar sempre vêm uns bichos que se movem através de dois gravetos secos e todos pintados de cor de fogo, pra roubar as partes das árvores, ainda bem que elas resistem aos maus tratos que as fazem. Dá-me uma vontade grande de morrer quando os bichos de fogo estão cortando alguma delas pelo tronco, porque já sei que não vão mais viverem.
    Sabe gente? Elas são as únicas coisas que não mexem comigo, já que sempre ficam no mesmo cantinho se mexendo com o passar do vento, ruim é quando um pedacinho delas voa até os meus olhos, aí fico todo agoniado, mais o vento logo passa e leva pra bem longe de mim. Isso não me faz ficar zangado, pois sei que não é por que elas querem.
    Agora imaginem em um dia de domingo pela madrugada, nenhum barulhento, nenhum bicho cor de fogo, nem vento e as coitadinhas imóveis e eu aqui como sempre, atuante, alternando com os olhos de fogo, com o olho do medo e o olho de se escapar. Pisco para o nada passar. Assim vivo e viverei até a morte me alcançar, já que sofro da tal longevidade. Estou no desespero, clamando ao amigo ferrugem que me leve o quanto antes e acabe com toda minha solidão e com o meu sofrimento.  

                                                                                                              Jesus Ximenes.

    [+/-]

    Não me nego.
    Sou carne. Pessoa. Gente.
    Mistura do tudo e do nada.
    Dentro e fora. Escuro e claro.

    Rejeitos do limiar
    entre proibido e permitido.
    Contexto: jogo de plural
    e complexo interesse.

    Discurso disfarça motivação..
    para ação.. pára a ação..
    desintegra no concreto
    Delicado estado do Ser

    Esfumaçado elo entre 
    o eu e o mundo. 




                                                                    Tatiane Sousa  

    foto: Cleomir Alencar  

    [+/-]

    Estudo para uma figura derradeira

    pés queimados
    carne viva
    unhas retorcidas
    crostas mortas
    quadro vivo
    corpo na cama
    fios saltados da face
    um coelho homem
    inesquecível
    esvai-se porém
    sua imagem
    antes da catástrofe
    detalhes e traços
    desbotam imprecisos
    eis uma hipótese:
    ele se torna sensação


    José Ailson Lemos
    Imagem: Francis Bacon

    [+/-]

    UM POEMA DE AMOR


    Foram tantos poemas escritos para você
    Pensando em seus beijos e na minha sorte
    Que agora já não sei o que fazer
    Não consigo entender essa ideia de morte.

    Foram tantas palavras ditas em momentos de prazer
    Tantas noites loucas que não voltam mais
    Sentimentos e sensações que só tive com você
    E agora sem ti, sinto que já não sou capaz.

    E já não sou capaz de me entregar outra vez
    Fazer das tuas fantasias momentos de realidade
    Já não sou capaz de esquecer tudo o que você fez
    Nem quero apagar nenhum momento de felicidade.

    Sei que se você estivesse aqui ouvindo o que eu digo
    Lembraria também dos grandes momentos de dor
    Mas, sempre iria concordar intensamente comigo
    Que nem só de espinhos se compõe uma flor.

    Luciana Braga. (Em: 01/09/10).

    [+/-]

    "A FORÇA DO MAR"

    Beatriz morava em uma típica cidadezinha do interior, com seus bichos, plantas, lagos, montanhas e um infinito céu azul. Adorava o lugar em que vivia, mas sentia falta de uma coisa que ela só conhecia por causa dos livros e da televisão: o mar.
    Dom Casmurro era o livro que ela mais gostava, sobretudo, pela presença constante do mar. Beatriz nunca vira descrição mais profunda quanto àquela dos “olhos de ressaca”, que tanto a inquietavam e fascinavam.
    Ela sempre teve um desejo intenso de um dia conhecer o mar. Quando lhe perguntavam o porquê de tal desejo, ela dizia: “Quero conhecer o mar, por que deve ser algo esplêndido, colossal. Acho fascinante o movimento que das águas revoltas e o barulho que a onda faz quando quebra ou bate em uma insistente pedra que cisma em cruzar se caminho, é tão vibrante quanto as batidas de um coração apaixonado.”
    Quando sua mãe ouvia isso, dizia apenas: “Deixe de sonhos bobos, menina, e vá procurar o quê fazer!”
    Mas, para ela não era um sonho bobo, ao contrário, era o encontro do infinito, pois ela era como uma ave que almeja realizar vários vôos, ainda que insistam em cortar suas asas.
    Cortando-se as asas se impede o vôo imediato, mas não aniquila o desejo, e de tanto desejar conhecer o mar, Beatriz, certo dia sonhou... Sonhou que o mar se apresentava a sua frente, e como fizera uma mocinha loira de um filme que ela assistira certa vez, correu ao encontro do mar. Correu com tanta força, desejo e determinação que quando se deu conta já estava com o corpo quase todo molhado daquela água fria, diferente, inquieta, espumante e salgada, provocando-lhe sensações que nunca tivera antes.
    O mar a envolvia como um abraço suplicante e insistentemente a puxava para dentro de si. Ela de tão envolvida e emocionada que estava nem se dava conta do perigo, simplesmente avançava como um coração desavisado e quando lembrou que nunca aprendera a nadar, sentiu um abraço apertado, sufocante, como se fosse uma serpente a envolvê-la por inteiro e sentiu pela última vez o movimento que a onda faz, levantando-nos para o alto, forçando-nos a pular, até que se afogou e conheceu as profundezas ocultas da morte.
    Beatriz acordou cansada por conta das lutas incessantes para reencontrar aquela pequena luz, que ela via em sonho quando estava chegando às profundezas. Sentiu na boca um gosto salgado de morte, mas nem por isso deixou de desejar conhecer o mar, pois aquele abraço que a envolvera, aparentemente a prendendo também, fornecia-lhe uma infinita libertação que só se encontra nos inexplicáveis sonhos.

    Luciana Braga. (Em: 25/08/10).

    [+/-]

    "A Arte" inspirada no "Os corvos"

    Perguntaram-me certo dia
    -Onde está a arte?
    -Ela é consolo ou agonia?
    Ora, a arte está em toda a parte
    Em cada verso, em cada melodia...
    A arte está em um sorriso
    Mas, ela também está no pranto
    Compreendê-la não é preciso
    Basta vê-la como um manto.

    -Um manto que possa nos cobrir?
    Mas, nunca nos proteger do frio
    Meu querido! A arte é para se sentir
    Não como um beijo, mas um arrepio.

    E quanto ao que me perguntares
    Se ela é consolo ou agonia
    Eu diria que ela é como aqueles mares
    Revoltos a nossa revelia.

    Diria que ela é inquietação fatal
    E que se queres consolo procures quem te ama
    Pois a arte profunda sempre perturba no final
    E ao invés de apagar, reacende a chama.

    Luciana Braga.(Em 18/08/10).

    [+/-]

    Má sorte do desejo

    Magnífico instante, este que vivo, em que me perco
    Os laços do desejo o querem atado, inteiro
    Estão sempre a agarrá-lo, não, querem a fundo conhecê-lo.
    Concebê-lo.
    São pensamento,
    Vão movimento.
    Atado está pela memória.
    Que dele só libera fagulhas de espelho.
    Cortam-se os fios do desejo,
    Tem-se apenas faíscas do nosso beijo
    Que em vão tento sempre lembrar
    Quanto mais forço o tentar
    Sempre um pouco mais esqueço.
    Keyla Freires

    [+/-]

    Amor perfeito

    Faço versos para ti, amor,
    Tenho tudo bem perto
    Lua, estrelas, noite, calor
    Perfeito para o poema certo
    Ensaio um começo:
    “A lua te roubou a beleza,
    Do teu seio a brancura
    No meu peito a certeza:
    Amo-te, tu e tua candura”
    Retomo o pensamento
    Meu amor não tem alvura
    E nem me traz tanto sossego
    Estes versos não são teus
    Quem sabe, nem meus
    Mas vão tão bem com a noite
    A lua e estrelas. Quase perfeitos
    Mas são amor demais
    Estão muito satisfeitos.
    Meu amor não é assim
    Não é alvo, não é luz
    Está sempre a me enganar
    É de mim oculto e seduz
    Volto aos versos:
    Não são raros
    De certa, foram já falados
    Nem contudo bem rimados
    Mas vão tão bem com a noite
    A lua e estrelas
    Mas outro poema não vem
    Não tenho poema novo
    Já é dia daqui a pouco
    Das minhas letras
    Nada de novo saiu
    Agora, sem lua, estrelas
    E um amor que ainda não existiu.

    Keyla Freires

    [+/-]

    Diálogo com a página em branco

    Ela está lá. Sempre a me falar. Diz tantas coisas, coisas tão belas, da ordem do infinito. É sem dúvida muito tagarela, mas não tem cérebro.  Não aguento ficar em sua frente, com tantas palavras borbulhando, pulando pra fora, saltitando feito adolescentes desorientadas. Persigo-as e elas sempre escorregam. “Saem pela culatra”. E ela está sempre a me dizer coisas sobre muitas coisas. E é difícil saber o que ela me fala, do que ela me fala. Os tímpanos de minha mente são quase perfurados pela sua tagarelice e não me vem o raciocínio. Nada me vem ou tudo vem ao mesmo tempo.
    A folha branca é uma maldita. Nunca diz bem as coisas.  Fala sempre por metades. Tem a voz truncada. E às vezes quase não tem voz. Mas não é porque ela calou não. Ela nunca cala. É safada. É tresloucada. Inconsciente e ciente dos danos que me causa. Danada.
    E o meu papel é tentar enganá-la. Tenho que trapaceá-la. Cada palavra que ela profere, e são sempre aos montes, deve ser atada a outra, para que assim, façam sentido. Mas não dá. Chego a pensar se não seria impossível juntá-las bem bonitas, atá-las uma a uma como os nós de uma rede de pesca. Formando losangos bonitos, simétricos embora um pouco arredondados. Mas elas não deixam. Não são da ordem dos losangos, talvez. São da ordem de si mesmas. Então vou juntando as que a meu ver são parecidas, que chegam a significar seja lá o que for. E é aí que eu acho que ficam mais bonitas na desordem mesmo.
    E continuo. Desisto dos losangos e parto pra outras formas geométricas ou ageométricas, ou não-formas. O importante pra mim é sempre estar em contato com essas palavras que diz a página em branco. Às vezes apenas a escuto. Ouço, ouço, ouço, ouço. Vejo os pulos das letrinhas, os pulões das palavras. Contemplo. Ouço. Amo-as. Chamo-as. Canto-as. Encanto-me. Cantam-me. Cato-as.


    Keyla Freires

    [+/-]

    Falho ato da escrita




    Cresce. Verte a imagem.
    Desce. Observa a branca planície.
    Desafio. Linha tênue atijolada
    Burburinho
                        No fim da estrada amarelada.

    E devastada, a memória não dispara.
    Labiríntica, és mãe acorrentada,
    Não desata quando quer
                                 sim
                          quando falta.                  

    Nathan Matos

    [+/-]

    Texere

    Em mente em cores  
    em dores amores com mantras
                                                                   palavras cimento digerido como fibras para tecer o dia
    matéria inútil a poesia

    [+/-]

    confessus

    Amo assim: com a natureza de um escorpião.
    De cauda tesa 
    pinças alçadas aos céus implorando
    a scorpio natureza 
    Klimt
    o veneno, a dor, a dormência
     O desejo que tenho de correr tuas veias. Letal
     adormecer teu corpo

    Que a toxina que em mim habita 
    ao percorrer tuas veias
     te paralise momentaneamente o lado direito
     e assim possas tu somente amar
    Que eu habite o teu lado gauche 
    e que tu tenhas o mesmo destino do poeta
    E seja eu tua poesia
       

    [+/-]

    Ut pictura poiesis




    Como na pintura
    pinta-se o pintor


    poeta-se o poeta
    na poesia


    a natureza:
    ela me pinta
    apresenta-se
    em tela


    vejo o mundo
    ele me escreve
    mostra-se
    em texto


    ela se pinta em mim
    ele se escreve em mim


    problema: que fazer com isso

    [+/-]

    Amor amado armado amarelo azul amém
              Matéria  mitose Mozart
                         Outro órbita ornado horrível orla
                                    Refém refaz remar rezar ruir
            Que na hora das trindades ao proferir o amém na promessa de te amar
    Delvaux
                   tu percorra a orla do meu corpo fazendo ruir meu desejo

    [+/-]

    Sonho Vivido

    Eu rodopiava em loopings numa velocidade supersônica, num céu que se configurava como um mosaico de cores distorcidas e vibrantes, conferindo ao ocaso a beleza de uma alucinação. E a minha alegria espalhava-se através de partículas em suspensão. Era uma nuvem de pólen que trazia paz e equilíbrio à minha euforia caótica.

    Então eu encontrei você,e tudo o que acontecia era sentido (e não falado) de uma forma tão fluida que eu sentia meu coração escorrer de felicidade no fluxo de um córrego. A partir dali nos tornaríamos uma poção miscível em uma só e que faria render sua fórmula. Tudo era tão natural e tão completo que era arrastado por essa plenitude fluvial.

    Mas o tempo passou e um dia eu soube que você queria ir; que queria caminhar em outra direção. E o que senti não foi raiva, rancor ou orgulho ferido, mas uma melancolia insustentável, que com sua gravidade plutônica pesou sobre meus ombros e transformou tudo ao redor em um limbo turvo, cinza e pesado, envolto pelas cargas elétricas de uma nebulosa.

    E a minha tristeza era tão infinita que passou a construir e afetar meu mundo, com seus raios de ondas-gama que coloriram meu lugar e a mim própria de tons de rosa e anil como a fase azul de Picasso. Meu corpo passou a ser um tênue raio de cores tristes.

    Foi quando você apareceu com aquela mulher, mas - mais uma vez - tudo foi sentido e não falado. Você ainda iria ser Eu, só não estava preparado - eu sabia que não estava preparado - mas ficamos diante um do outro e pude sentir a aquarela adocicada do teu olho bonito. Foi quando você me encarou e disse:
    "Meu amor, há beleza demais para se ver."

    Agora eu sabia que podia viver de detalhes e erguer o meu próprio mundo a partir deles. Lançei vôo envolta por um globo de energia luminosa que deixava seu rastro dourado pelo espaço. E eu me permiti controlar meu próprio sonho, vivendo sensações de paz e alegria incomensuráveis.

    E foi assim que eu tive o meu primeiro sonho vivido.

    [+/-]

    I Found a Reason

    Sempre que aquela angústia se espalha por seu corpo sob a forma de um formigamento virulento, seu “eu” torna-se “ela”. O embrião encharcado de sangue, vida e vísceras transporta-se para a esfera da palavra, multiplicando suas células e (des)organizando-se em um mundo etéreo, com sua própria estrutura atômica, nessa desordenada alquimia do impalpável.

    Esse tremor musicado pela melodia das palavras as transcende; transcende o “ela”. Suas ondas sonoras atingem os confins do inefável e escapam às suas mãos.

    Atormentada por essa melodia, ela tenta torná-la concreta tecendo a escritura. Mas dar forma a uma massa amorfa é uma caminhada trôpega e desencontrada: é o fio de Ariadne que não encontra a solução do labirinto; é a manta de Penélope que é construída e desfeita a cada dia; é tecer o infinito sem o julgamento das Moiras para determinar seu desfecho.

    E nessa busca em espiral, Ela sente que o propósito de tecer é voltar à paz amniótica do embrião em seu início. É, num mundo onírico infantil, a luta para atravessar os sete céus e aprisionar um punhado de poeira das estrelas nas mãos.

    [+/-]

    O que é escrever?

       Detenho comigo uma ânsia pela leitura. Habitualmente, costumo entreter minhas horas lendo livros que me fazem rir, aprender e a conhecer-me intimamente. Sei que os textos que li me transformaram em outro ser. Passei por diversas metamorfoses e ainda passo, pois não estou pronto ou, talvez, nunca esteja. Mas há algo diferente. Sou um ser pensante. Minha imaginação flui concebendo novas idéias, maquinando planos, elaborando fórmulas e intuindo possibilidades.
        Porém, ultimamente sinto uma força pujante guiar-me por um caminho que até pouco tempo era refratário. A via do escrever. Imaginava que para realizar tão nobre arte era preciso estar num lugar inspirador a contemplar a primavera, possuir um talento nato ou ser galardoado com uma inspiração divina.
        Vejo que não. Penso. Sempre escrevi. Fico embasbacado. Escrevi desde o ventre de minha madre o meu próprio texto, que é único, verdadeiro, mágico, minha própria história que tem diversos capítulos de amor, felicidade, medo, aventuras, conquistas etc.
      Resta-me, agora, apenas reescrevê-la em folhas de papel.

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